Archive for Julho 2009

Sorria

"Algumas vezes a alegria pode ser a origem do seu sorriso; mas, algumas vezes, o seu sorriso pode ser a origem da sua alegria."


Thich Nhat Hanh

Oportunidade na impermanência

O movimento de retorno na vida de uma pessoa, o enfraquecimento ou a dissolução da forma, seja por meio do envelhecimento, da doença, da incapacidade, da perda ou de algum tipo de tragédia pessoal, contém um grande potencial para o despertar espiritual - o rompimento da identificação da consciência com a forma. Considerando o fato de que não há muita verdade espiritual na cultura contemporânea, poucas são as pessoas que reconhecem esses eventos como uma oportunidade. Assim, quando eles acontecem com elas ou com alguém próximo, sua crença é de que existe algo terrivelmente errado, alguma coisa que não deveria estar ocorrendo.

Eckhart Tolle em "Um novo mundo - o despertar de uma nova consciência".

Sementes adormecidas

Como bulbos adormecidos sob a terra enregelada, as qualidades da mente iluminada necessitam de tempo e de condições apropriadas para brotar. Embora momentos de visão clara surpreendentes e reveladores possam aprofundar nosso entendimento, a mente iluminada não se abre de repente. Esses momentos de visão clara são como os dias que vão ficando mais quentes no fim do inverno. Um único dia quente, ensolarado, não fará com que as flores desabrochem, mas, se mais dias assim ocorrerem, veremos indícios do caule e das folhas e, finalmente, botões. Da mesma maneira, à medida que se acumulam, os momentos de visão clara começam a influir em nossa atividade. Somos capazes de abrir nosso coração. Começamos a usar o que entendemos na contemplação para inspirar nossa conduta no mundo. O tipo de visão clara que temos e a capacidade de entender seu significado dependem de quanto tivermos antes consolidado a força da mente.
Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".

A oração do bodhichitta

"Para que a sabedoria da vacuidade funcione como um antídoto realmente efetivo para as aflições mentais e os obscurecimentos sutis ao conhecimento, deve-se ter o fator complementar de bodhichitta, a intenção altruística de atingir o estado de buda para o benefício de todos os seres."

Dalai Lama em "A essência do Sutra do Coração".
"Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvida, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna."
Oração de São Francisco de Assis.

Enfrente os seus demônios, seu próprio ego!

Chöd é um dos mais profundos e melodicamente inquietantes métodos de cura tibetana. A prática nos ajuda a nos livrar do apego àquilo que mais prezamos - o corpo - e enfraquece a nossa falsa noção de um eu concreto. A meta de chöd é libertar a mente do medo para que penetre na grande extensão do mahamudra (mente sem objetivo). Transpondo a dualidade desta maneira, acredita-se que a pessoa consiga inativar todos os demônios, liberando-os no espaço cósmico.

Em Machig Labdron and the Foundation of Chöd, Jerome Edou cita a descrição que a própria yoguine faz da prática:
"Afortunados, guardem isso no coração, as minhas instruções sobre chöd são o ensinamento autêntico do mahamudra. Este mahamudra não pode ser explicado em palavras, mas é assim: Ma é a naturaza vazia da mente, Ha é a liberação da vastidão do samsara e Mudra é a sua inseparável união."

Ralph Quinlam Forde em " O livro da medicina tibetana".

Que tal sorrir um pouco...quer dizer, muito!!!

Extraído do blog: compartilhando Plum Village.

Se somos um pessoa livre, não somos condicionados pelas coisas ao nosso redor. Simplesmente sorrimos para elas e trilhamos o nosso caminho. Aquilo que nos cerca é como um espelho. Se nós sorrimos, o espelho sorri. Se choramos, o espelho chora. Se estamos mal então a situação se torna ruim também. Mas mesmo numa situação ruim, se formos capazes de sorrir, então aquilo que nos cerca irá sorrir conosco. Portanto, aquilo que nos cerca está vindo da nossa mente.
Thich Nhat Hanh (Nothing to Do, Nowhere to Go - Waking Up to Who You Are)

Por gentileza, não deixem de ver o maravilhoso blog: http://compartilhandopv.blogspot.com/

Equanimidade

Para encorajar a equanimidade, podemos assumir a atitude de que todos os que encontramos, direta ou indiretamente, foram bondosos conosco. O motorista do ônibus leva-nos aonde precisamos ir. Pessoas trabalham à noite para que possamos ler as notícias no café da manhã. Um total desconhecido cultivou a batata que comemos no almoço. Mesmo alguém que nos irrita pode nos dizer as horas se lhe pedimos essa informação. Se acreditamos em reencarnação, uma maneira tradicional de fazer surgir uma atitude de equanimidade é imaginar que, em algum momento ao longo de muitas vidas, qualquer ser senciente foi nossa mãe. Cada ser que encontramos nos ofereceu amor incondicional e a proteção de uma mãe, assim como já oferecemos a cada um deles. A pessoa sentada ao nosso lado no avião, em uma ou outra de suas vidas, foi nossa mãe, nosso pai, nosso filho, nosso irmão ou nossa irmã. Quando invocamos a equanimidade, o objetivo é libertar-nos de opiniões, abrir mão das idéias relativas do que gostamos e desgostamos.


Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".

Definindo a verdade

No budismo o conhecimento é visto como um obstáculo para o entendimento, como um bloco de gelo obstruindo a corrente de água. É sabido que se tomamos uma coisa como verdade e a isso nos apegamos, mesmo que a própria verdade apareça em pessoa e bata à nossa porta, nós não a abriremos. Para que as coisas possam ser reveladas a nós, precisamos estar dispostos abandonar nossos pontos de vista sobre as mesmas.
Buda contou um estória sobre isso. Um jovem viúvo tinha um filho de 5 anos, a quem amava muito. Num dia em que teve de ausentar-se para tratar de negócios, sua vila foi invadida e incendiada por bandidos que levaram também o seu filho. Ao voltar e dar com as ruínas, o homem ficou em pânico. Tomou o cadáver carbonizado de um empregado doméstico como sendo de seu filho, chorando e debatendo-se desatinadamente. Organizou uma cerimônia de cremação, recolheu as cinzas e as guardou numa linda sacola de veludo. Trabalhando, dormindo, comendo, ele sempre carregava a sacola consigo.
Um dia seu filho conseguiu escapar dos sequestradores e correu, tomando o caminho de casa. Chegou à nova cabana do pai no meio da noite e bateu à porta. Imagine que o pai ainda carregava consigo a sacola, chorando, relembrando.
- Quem é? - perguntou o pai.
- Sou eu, papai. Abra a porta. É seu filho.
No seu atordoado estado mental, o pai achou que seria algum moleque travesso querendo se divertir às suas custas, e berrou, mandando o menino embora e continuando a chorar. O rapaz bateu outras e outras vezes, mas o pai recusou-se a abrir a porta. Depois de um bom tempo o rapaz finalmente desistiu e se foi. A partir daí pai e filho nunca mais se viram. Ao terminar de contar esta estória Buda disse: -Às vezes, em algum lugar, você toma alguma coisa como sendo verdade. Se você se apega muito a isso, quando a verdade chegar em pessoa e bater à sua porta, você não a deixará entrar.
Thich Nhat Hanh em "Caminhos para a paz interior".

O poder do ócio


Sentado quietamente, nada fazendo, a primavera vem, a grama cresce por si.
Zenrin Kushû.

blog dharma/arte

vale a pena acessar: http://blog.dharma.art.br/

Espelho


Se fizermos uma lista das pessoas das quais não gostamos... descobriríamos muito sobre os aspectos de nós mesmos que não conseguimos encarar.


Pema Chödron em "Começe onde você está".

Primeiro estágio da meditação

Colocar a mente sobre a respiração é a primeira coisa que fazemos na meditação. Nesse momento, montamos o cavalo: colocamos o pé no estribo e nos alçamos para a sela. É uma questão de sentar-se corretamente.

O momento da colocação inicia quando retiramos a mente de seu compromisso com eventos, problemas, pensamentos e emoções. Pegamos essa mente selvagem e atarefada e a colocamos sobre a respiração. Embora estejamos trabalhando com a consciência, que não é física, a colocação parece muito física. É algo tão deliberado quanto colocar uma pedra em cima de uma folha.

(...)

Para meditadores iniciantes, é no primeiro estágio que se aprende como equilibrar o enfoque na respiração, reconhecer os pensamentos e manter a postura. É um período de carência durante o qual desenvolvemos bons hábitos de meditação. Se continuamos a praticar, a colocação é sempre o primeiro passo. É o momento no início de cada sessão em que reconhecemos que começamos a meditar, que nos damos conta disso. Porque define nossa atitude para o resto da sessão, é o estágio mais importante. O momento da colocação dá à meditação uma partida nítida, livre de obstáculos. Se começarmos de uma maneira vaga ou ambígua, a meditação será vaga e ambígua. É como uma peça de dominó: a maneira cuidadosa como colocamos a mente no primeiro estágio afeta diretamente o que vem em seguida.


Depois desse primeiro momento, cada vez que decidir reconhecer um pensamento, dar-se conta dele e voltar a consciência à respiração, você estará aprendendo a colocação. Um ato tão pequeno, tão inofensivo, é uma das coisas mais corajosas que você pode fazer. Quando reconhecer e liberar aquele pensamento, você poderá orgulhar de si mesmo. Você terá vencido a preguiça. Você se lembrou das instruções. Poderá se sentir feliz ao retornar à respiração. Não se preocupe com o fato de que terá de fazer isso novamente - você fará milhares de vezes. É por isso que chamamos de prática.


Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".

Interconexão

Existe outra prática para tocar a terra chamada três reverências. Entregamos nosso eu para a corrente da vida e observamos a fundo a natureza da nossa interconexão. Todas as noites, no meu eremitério na França, pratico as três reverências antes de dar início à meditação sentada. (...)
A Segunda Reverência
Tocando a terra, conecto-me a todas as pessoas e a todas as espécies que estão vivas neste momento, neste mundo comigo. Sou um com o maravilhoso padrão de vida que se irradia em todas as direções. Sinto a estreita conexão existente entre mim e os outros - sinto como todos nós compartilhamos felicidade e sofrimento. Sou um também com aqueles que nasceram deficientes ou que fora incapacitados em decorrência de guerras, acidentes ou doenças. Sou um com os que foram subjugados em uma situação de guerra e opressão. Sou um também com os que não encontram felicidade na vida familiar, que não têm raízes e nem paz de espírito, que têm sede de compreensão e de amor, que estão à procura de algo bonito, sadio e verdadeiro que possam abraçar e em que possam acreditar. Sou alguém prestes a morrer que está com muito medo e não sabe o que vai acontecer. Sou ao mesmo tempo a criança que vive em algum lugar onde existem miséria e doença, cujas pernas e braços se assemelham a gravetos, e que não tem futuro. Sou o fabricante das bombas que são vendidas aos países pobres. Sou o sapo nadando no lago e sou também a cobra que precisa do corpo do sapo para alimentar seu próprio corpo. Sou a lagarta e a formiga que o pássaro está procurando para comer. E sou também o pássaro que está procurando a lagarta e a formiga. Sou a floresta que está começando a ser devastada. Sou o rio e o ar que estão sendo poluídos e sou a pessoa que derruba a floresta e polui os rios e o ar. Vejo a mim mesmo em todas as espécies e também vejo todas as espécies em mim.

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".

A rede de Indra


A compaixão é essencialmente o reconhecimento de que todos e tudo são um reflexo de todas as outras pessoas e todas as outras coisas. Um texto antigo chamado Avatamsaka Sutra descreve o universo como uma rede infinita gerada pelo desejo de Indra, uma divindade hindu. Em cada conexão dessa rede infinita há uma jóia maravilhosamente polida e infinitamente facetada, que reflete, em cada uma de suas facetas, todas as facetas de todas as outras jóias da rede. Uma vez que a própria rede, o número de jóias e o número de facetas de cada jóia são infinitos, o número de reflexões também é infinito. Quando qualquer jóia nessa rede infinita é alterada de qualquer forma, todas as outras jóias na rede também mudam.

A história da rede de Indra é uma explicação poética para as conexões algumas vezes misteriosas que observamos entre eventos aparentemente não-relacionados.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

A essência de ser humano


Quando começamos a examinar verdadeiramente a mente, percebemos alguns princípios de seu funcionamento. Em primeiro lugar, ela sempre se coloca sobre alguma coisa. Faz isso para saber o que acontece. Em geral, temos enraizada a tendência de acompanhar distrações - o que é o oposto de uma mente estável. Talvez, a mente se coloque sobre a idéia de nosso jantar. Depois, pensamos no que há dentro da geladeira. A seguir, pensamos num restaurante. Pensamos então na roupa que vamos usar para ir até o restaurante. Depois pensamos em comprar roupas novas. A mente se reposiciona o tempo todo, em geral apenas por poucos segundos. Este é o caso até mesmo quando pensamos sistematicamente sobre um tema, como quando planejamos algo.
(...)
Quando repousamos na paz, usamos o momento presente como um ponto de referência para nos redirecionarmos com a mente e superarmos seu aturdimento e sua qualidade discursiva. Nós nos sentamos para meditar, tanta coisa se passa pela mente que é fácil nos perdermos. Vagamos por essa selva densa, sem saber o que acontece. O momento presente e a respiração são como o topo de uma montanha vista a distância. Mantemos o olhar fixo nele enquanto caminhamos em sua direção. Precisamos chegar ao cume da montanha, queremos escalar seu topo e olhar ao redor para conseguirmos imaginar onde estamos.
(...)
Quando experimentamos um momento de repouso na paz, parece muito estranho. A mente já não está à deriva, não pensa mais em um milhão de coisas. O sol nasce ou sopra uma brisa quente _ e de repente sentimos a brisa e estamos completamente em sintonia. Pensamos: "Essa é uma experiência muito espiritual. É uma experiência religiosa. Merece ao menos um poema, ou que eu escreva uma carta para casa." Mas tudo o que está acontecendo é que por um momento estamos em sintonia com a mente. Ela está presente e é harmoniosa. Antes, estávamos tão ocupados e aturdidos que nem notávamos a aragem. A mente nem podia conservar-se colocada por tempo suficiente para observar o nascer do sol, que leva dois minutos e meio. Agora, podemos mantê-la no mesmo lugar por tempo bastante para que note e aprecie o que está à sua volta. Agora estamos verdadeiramente aqui. De fato, estar no momento presente é normal; é a essência de ser humano.

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".

Ciclo do sofrimento (ou, o nosso dia à dia que passa desapercebido)


Samsara é um círculo de sofrimento, como uma roda que gira incessantemente. Fazemos girar a nossa roda. Continuamos a procurar algo que seja diferente. Da próxima vez seremos felizes. Este relacionamento não deu certo - mas o próximo dará. Este restaurante não é tão bom assim - mas o próximo item do cardápio vai me agradar. Minha última sessão de meditação não foi grande coisa, e tampouco a imediatamente anterior - mas a próxima será verdadeiramente diferente. Uma coisa conduz a outra e, no lugar da simplicidade e da felecidade que desejamos, nos sentimos apenas mais sobrecarregados pela vida. em vez de relaxarmos na bondade fundamental que nos liga com todos os outros seres vivos, sofremos a doença da separação, que é apenas um truque da nossa mente.

O Buda disse: "O verdadeiro sofrimento é a natureza do samsara". Podemos até não ver o sofrimento em nossa vida, em parte porque nos acostumamos com ele. Mas, se olhamos abaixo da superfície, percebemos que o sofrimento se infiltra como um rio subterrâneo. Podemos reconhecer isso ou não, no entanto, sentimos isso e conservamos uma vigilância mental para nos mantermos ocupados, numa tentativa de evitá-lo. Repetidamente inventamos esquemas para enganar o samsara. Embora saibamos que nada altera o caráter básico do samsara, continuamos tentando fazer com que ele dê certo. Para manter o prazer que temos, é preciso um grande esforço de manutenção. É assim que tentamos fazer o samsara funcionar, e é isso que nos conserva na roda. Pensamos; "Sei que não tem fim. Sei que é doloroso. Sei o que você está dizendo. Mas tenho só uma coisa mais para fazer, só uma pequena coisa." PODEMOS IR PARA A SEPULTURA DIZENDO ISSO. Isso é o samsara. "Só uma mais" - este é o fator que aglutina o ciclo do sofrimento.


Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada"