Archive for Junho 2010

O poder da fala amável e da escuta compassiva.

   Consciente do sofrimento causado pela fala inconsequente e por minha falta de habilidade em ouvir os outros, eu me comprometo a cultivar a fala amável e a escuta compassiva para aliviar o sofrimento e promover a reconciliação e a paz em mim mesmo e entre as pessoas. Sabendo que as palavras podem criar tanto felicidade quanto sofrimento, eu me comprometo a falar a verdade com palavras que inspirem confiança, alegria e esperança. Ao perceber a raiva se manifestando em mim, eu me comprometo a não falar. Praticarei a respiração e o caminhar em plena consciência para reconhecer minha raiva e olhar com profundidade suas raízes - especialmente no caso de percepções errôneas ou falta de compreensão do meu próprio sofrimento e do sofrimento de outras pessoas. Falarei e escutarei de modo a aliviar o sofrimento, tanto em mim quanto nos demais, e a resolver situações difíceis. Eu me comprometo a não espalhar notícias das quais não tenha certeza e a não usar palavras que possam causar a divisão e a discórdia. Praticarei a diligência correta como um meio de nutrir minha capacidade de compreensão, amor, alegria e inclusão, e também para transformar gradativamente a raiva, a violência e medo presentes em minha consciência.

Thich Nhat Hanh.     

Para relaxar e sorrir...


Por gentileza, desligue o clipe do site e permita-se ouvir a maravilhosa voz de Louis Armstrong. Agora, relaxe e sorria... Que preciosa oportunidade é estar vivo neste mundo maravilhoso...

Um esforço necessário...

   A maior parte das pesquisas atuais da área da psicologia que têm como objetivo de estudo o controle das emoções concentra-se em como dirigir e modular as emoções depois que elas já invadiram a nossa mente. O que está faltando, ao que parece, é o reconhecimento de que uma atenção mais desenvolvida e uma clareza mental - a "presença mental" do budismo - podem desempenhar papel central nesse processo de controle. Reconhecer a emoção no exato momento em que ela surge, compreender que ela não é nada mais que um pensamento - desprovido de existência intrínseca -, permitir que ela se dissipe de maneira a evitar a reação em cadeia a que via de regra daria origem são atitudes que estão no cerne da prática contemplativa budista. 
   Sabemos que a maestria em qualquer disciplina, música, medicina, matemática, etc., requer treinamento intensivo. No entanto, parece que no Ocidente - com exceção da psicanálise, cujos resultados são, na melhor das hipóteses, incertos, e o processo, doloroso - não é comum que sejam empreendidos esses esforços persistentes que visam, a longo prazo, transformar os estados emocionais e o temperamento. A própria meta da psicanálise é diferente da estabelecida pela psicologia positiva ou pelo budismo, que buscam não apenas "normalizar" o nosso modo neurótico de funcionar no mundo. A condição considerada "normal" é, nos dois casos, apenas o ponto de partida, não o objetivo. A nossa vida vale muito mais do que isso! Disse-me certa vez Martin Seligman: "O melhor que ela [a psicanálise] pode fazer é nos levar de menos dez para zero."
   Esse esforço, no entanto, é muito desejável. Precisamos nos livrar das toxinas mentais e, ao mesmo tempo, cultivar os estados da mente que contribuem para o equilibrio emocional e asseguram o bom desenvolvimento de uma mente saudável.

Matthieu Ricard em "Felicidade: a prática do bem-estar".

Apaziguar a raiva.

   Um brâmane perguntou ao Buda:
- Mestre, existe alguma coisa que o senhor seria capaz de matar?
- Sim, a raiva. Matar a raiva remove o sofrimento, trazendo paz e felicidade. A raiva é o único inimigo que todos os sábios aceitam matar - o Buda respondeu.
   Essa resposta o impressionou, e ele se tornou monge na comunidade do Buda. Quando o primo desse brâmane soube que este se tornara monge, foi procurar Buda para insultá-lo. O Buda apenas sorriu. O homem ficou ainda mais furioso e perguntou:
- Por que não responde?
- Se alguém recusa um presente, quem ofereceu deve pegá-lo de volta - o Buda retrucou.
Palavras e ações iradas ferem, acima de tudo, a própria pessoa. Depois disso, o Buda recitou o seguinte poema:
   Como a raiva pode surgir
   naqueles que não têm raiva?
   Quando pratica se observando a fundo e domina a si próprio,
   você vive em paz, em liberdade e em segurança.
   Quem ofende o outro
   depois de ter sido ofendido por ele
   se fere e fere o outro.
   Quando você se sente ferido
   e não fere o outro,
   é realmente um vitorioso.
   Sua prática e sua vitória beneficiam ambos.
   Conhecendo as raízes da raiva que estão dentro de você e no outro,
   sua mente gozará de verdadeira paz, alegria e serenidade.
   Você se tornará o médico que cura a si mesmo e o outro.
   Se você não compreende,
   pensará que não ter raiva é próprio dos tolos.*

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".
*The Sutra of 42 Chapters.

Iguais...

   Se cultivares um sentimento de compaixão, de afeição e de gentileza, então se abrirá automaticamente em ti uma porta interior. Por essa abertura, podes comunicar-te mais facilmente com as outras pessoas. Descobrirás que todos os seres humanos são como tu e sentirás mais capaz de entrar em contato com eles. Isso te dará um espírito de amizade. Desde então não te sentirás mais obrigado a dissimular e ficarás liberto da sensação de medo, dúvida e de insegurança. Em troca, isso criará em ti uma sensação de confiança por parte das outras pessoas em relação a ti. 

S.S. Dalai Lama em "Princípios de vida". 

Oitenta e quatro mil portas...

   O único objetivo do budismo ao tratar das emoções é nos liberar das causas fundamentais do sofrimento. Parte-se do princípio de que certos eventos mentais são pertubadores, não importando a intensidade ou o contexto em que surjam. Esse é o caso dos três processos mentais considerados como os "venenos" mentais básicos: o desejo, no sentido de "sede", ânsia, avidez que atormenta; o ódio, desejo de ferir, de fazer sofrer; e a ilusão, que deforma a nossa percepção da realidade. O budismo geralmente acrescenta a esses três estados mentais o orgulho e a inveja; junto eles constituem os cinco venenos maiores, aos quais se associam cerca de sessenta estados mentais negativos. Os textos sagrados se referem também a "oitenta e quatro mil emoções negativas". Elas não são especificadas em detalhes, mas esse número simbólico dá uma idéia da complexidade da mente humana e nos convida a compreender que os métodos para transformar a mente devem se adaptar à enorme variedade de disposições mentais. É por essa razão que o budismo fala das "oitenta e quatro mil portas" que levam ao caminho da transformação interior.

Matthieu Ricard em "Felicidade: a prática do bem-estar".

Esforço e felicidade...

   Somos muito parecidos com aqueles pássaros que passaram tanto tempo na gaiola que mesmo quando têm a possibilidade de voar para a liberdade voltam a ela. Estamos tão acostumados com nossos erros que mal podemos imaginar como seria a vida sem eles. A perspectiva de mudança nos dá vertigens.
   E isso não é falta de energia. Como dissemos, fazemos esforços consideráveis em um sem-número de direções, empreendendo incontáveis projetos. Como diz um provérbio tibetano: "Eles têm o céu estrelado como chapéu e o gelo como botas", porque ficam acordados até tarde da noite e acordam antes do amanhecer. Mas se nos ocorre pensar: "Eu deveria tentar desenvolver o altruísmo, a paciência, a humildade", hesitamos, e dizemos a nós mesmos que essas qualidades virão naturalmente a longo prazo, ou que não são grande coisa, e que até agora passamos perfeitamente bem sem elas. Quem, sem esforços metódicos e determinados, pode interpretar Mozart? Certamente isso não é possível se ficarmos martelando o teclado com dois dedos. A felicidade é um modo de ser, é uma habilidade, mas para desenvolvê-la é necessário aprendizado. Como diz o provérbio persa: "A paciência transforma a folha de amora em seda."

Matthieu Ricard em "Felicidade: a prática do bem-estar".   

Metta Sutta, o discurso sobre o amor.

   "Aquele ou aquela que quiser alcançar a paz deverá ser honesto, humilde e capaz de ter uma fala amorosa. Saberá viver com simplicidade e feliz, os sentidos apaziguados, livre de inveja e sem se deixar levar pelas emoções da maioria das pessoas. Que não cometa atos que sejam desaprovados pelos sábios (e é isso que ele ou ela almeja):
   Que todas as pessoas possam ser felizes e viver em segurança, e que seu coração esteja pleno de alegria. Que todos os seres possam viver em segurança e em paz, quer sejam fracos ou fortes, altos ou baixos, grandes ou pequenos, visíveis ou invisíveis; quer estejam perto ou longe, já tendo nascido ou ainda por nascer. Que todos possam viver em perfeita tranquilidade.
   Não deixemos ninguém fazer o mal a ninguém. Não deixemos que alguém coloque uma vida em perigo. Não deixemos que, por raiva ou más intenções, alguém deseje o mal a outra pessoa.
   Assim como a mãe que ama o seu único filho e o protege arriscando a sua própria vida, devemos cultivar o amor sem limites e oferecê-lo a todos os seres vivos de todo o cosmo. Deixemos esse amor sem limites penetrar por todo o universo, em cima, embaixo e em todas as direções. Nosso amor não conhecerá obstáculos, nosso coração será absolutamente livre de ódio e inimizades. Quer estejamos de pé ou andando, sentados ou deitados, enquanto despertos manteremos essa consciência de amor no nosso coração. Essa é a maneira mais nobre de viver.
   Livres de visões errôneas, da cobiça e dos desejos sensuais, com a vida voltada para o belo e dentro de uma perfeita compreensão, os que praticam o amor sem limites certamente transcenderão o nascimento e a morte."     

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".

Paciência...

   Geralmente, se algo nos parece valioso, sentimos que temos de trabalhar de forma árdua para conquistá-lo ou partir em busca dele. No caso do despertar, isso não funciona. De fato, isso nos leva muito além do campo do despertar.
   Uma pessoa foi a um mestre zen e disse: "Se eu me empenhar bastante, quanto tempo levarei para ficar iluminado?"
   O mestre zen o olhou de cima a baixo e disse: "Dez anos."
   A pessoa disse: "Não, escute, estou querendo dizer: se eu realmente me empenhar nisso, quanto tempo?"
   O mestre zen o interrompeu: "Sinto muito. Eu errei. Vinte anos."
   "Espere!", disse o rapaz. "O senhor não está entendendo! Eu estou..."
   "Trinta anos", disse o mestre zen.
    
Steve Hagen em "Budismo claro e simples".       

Nada especial.

   Ser ativo é próprio da natureza humana, assim como de todas as formas de existência. Enquanto vivos, estamos sempre fazendo alguma coisa. Mas tão logo você pense: "Estou fazendo isto" ou "tenho que fazer isso" ou "preciso conseguir aquilo", você, na verdade, não está fazendo nada. Quando você renuncia, quando não deseja mais coisa nenhuma, quando não tenta nada de especial, então você está fazendo alguma coisa. Quando não há nenhuma idéia de ganho naquilo que fez, então está fazendo algo. Em zazen, você não faz o que faz objetivando algo. Você pode sentir-se como que fazendo algo especial mas, na verdade, simplesmente está expressando sua verdadeira natureza; é a atividade que aplaca seu mais profundo desejo. Praticar zazen com algum objetivo não é a verdadeira prática.
   Se você continuar esta simples prática todos os dias, obterá um poder maravilhoso. Uma coisa maravilhosa antes de ser atingida, mas nada de especial uma vez obtido. É simplesmente você mesmo, nada especial. Como diz um poema chinês: "Eu fui e voltei. Não era nada especial. Rozan é famosa por suas montanhas; Sekko por suas água". As pessoas pensam que deve ser maravilhoso ver a famosa cadeia de montanhas abraçada pela bruma e a água que se diz cobrir toda a terra. Mas se você for lá, verá apenas água e montanha. Nada especial.   

Shunryu Suzuki em "Mente zen, mente de principiante".

Meditação da laranja.

   Quando você olha profundamente para uma laranja, você percebe que uma laranja, ou qualquer fruta, não é nada menos que um milagre. Tente. Pegue uma laranja e segure-a em sua palma. Inspire e expire lentamente, e olhe para ela como se estivesse vendo pela primeira vez.
   Quando você olha para ela com profundidade, você será capaz de de ver coisas maravilhosas: o sol brilhando e a chuva caindo sobre a laranjeira, as flores da laranjeira, a pequenina fruta aparecendo no galho, a cor da fruta mudando de verde para amarelo e, depois, a laranja plenamente madura. Agora, vagarosamente, comece a descascá-la. Sinta o maravilhoso perfume da casca da laranja. Tire um gomo da laranja e ponha-o na boca. Prove seu suco maravilhoso. 
   A laranjeira levou três, quatro ou seis meses para produzir esta laranja para você. É um milagre. Agora a laranja está pronta e diz: "estou aqui para você". Mas se você não estiver presente, você não ouvirá isso. Quando você não está olhando para a a laranja no momento presente, a laranja também não estará presente. 
   Estar plenamente presente enquanto comemos uma laranja, uma casquinha de sorvete ou qualquer outro alimento é uma experiência deliciosa.

Thich Nhat Hanh em "Eu busco refúgio na Sangha".

Meditação na ação.

   Sua Santidade Penor Rinpoche é um dos poucos verdadeiros mestres de meditação ainda vivos. Ele é uma inspiração constante para mim, em especial por ser alguém que se esforça continuamente em ajudar os outros e que parece encontrar alegria e energia nesse esforço. Este é um sinal verdadeiro de um meditador consumado.
   Depois que ele e milhares de pessoas fugiram do Tibete para a Índia, havia poucos lugares onde monges e monjas podiam encontrar alimento e abrigo, quanto mais continuar sua prática de meditação. Por isso, Penor Rinpoche decidiu restabelecer na Índia o mosteiro que tinha perdido. Teve de limpar um terreno na selva e levantar fundos pouco a pouco. Mas enfim ele conseguiu construir o mosteiro com suas próprias mãos. Este continua a crescer e prosperar, e milhares de pessoas beneficiam-se disso. Penor Rinpoche ainda trabalha incansavelmente, com muitas responsabilidades administrativas, financeiras e educacionais. 
   Apesar de seu esforço constante, ele é inabálavel em sua energia. É uma pessoa alegre - sempre fazendo piadas e contando histórias. Num instante, está inteiramente presente, à disposição de uma pessoa enferma ou à morte, então, em seguida, ajuda um jovem monge metido em dificuldades. Não descansa nos fins de semana e tampouco tira uma folga; pelo contrário, exibe o tempo todo o seu esforço alegre, dia após dia, enchendo as pessoas de confiança. Certa vez contou-me que não se preocupava muito: "A vida fica mais difícil se nos preocuparmos. É melhor que nos ocupemos com as coisas à medida que vão surgindo".
   Ele é verdadeiramente um exemplo de alguém que exerce seu esforço com fluidez. Decerto, isso não significa que ele viva uma vida quieta, isolada. Está sempre atarefado e enfrentado obstáculos, mas faz isso com equanimidade, alegria e uma mente forte estável. Isso é  a meditação na ação. Praticar o esforço dessa maneira ajuda-nos a transformar a maré da preguiça na prática da meditação e na vida diária, e nos treina a viver com confiança e força. 

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".       

Fala-nos da liberdade...

E um tribuno disse:
- Fala-nos da liberdade.
E ele respondeu: 
- Às portas da cidade e em vossos lares, eu vos vi prosternar-vos e adorar vossa própria liberdade. Como escravos que se humilham perante um tirano e glorificam-no embora ele os destrua. Sim, na alameda do templo e à sombra da cidadela, tenho visto os mais livres entre vós carregar sua liberdade como um jugo e um grilhão. E meu coração sangrou dentro de mim; pois só podereis liberta-vos quando até mesmo o desejo de procurar a liberdade se tornar um jugo para vós, e quando cessardes de falar da liberdade como uma meta e um fim. Sereis, na verdade, livres, não quando vossos dias estiverem sem preocupações e vossas noites sem necessidades e sem aflição. Mas, antes, quando essas coisas apertarem vossa vida e, entretanto, conseguirdes elevar-vos acima delas, desnudos e desatados. 

Gibran Khalil Gibran em "O profeta". 

Qual é a sua motivação?

   A palavra tibetana para motivação é künlong. Significa "subir acima de, avançar". Ativando a motivação, tornando-a maior, é assim que avançamos além do samsara. É preciso coragem para aumentar a motivação. O primeiro passo na expansão da motivação é parar e perceber o que estamos fazendo. Podemos começar por perguntar: "Qual é a finalidade da minha vida, seu verdadeiro significado? Qual minha motivação ao viver esta vida?". Quanto mais contemplamos a motivação, mais ela se torna uma força potente e poderosa. 
   Tradicionalmente, há poucos níveis diferentes de motivação pelos quais podemos viver. Essas motivações são um desenvolvimento natural do potencial humano. A primeira motivação é cuidar de nossas necessidades materiais. Essa é uma motivação de senso comum. Temos de comer, vestir-nos e manter-nos aquecidos. É bom cuidar da família e de nós mesmos. Contudo, se essa é a única motivação, não estamos realizando o potencial humano. 
   A segunda motivação é um pouco mais ampla: combinamos as metas mundanas com a prática espiritual. Em nossa cultura muitos praticantes são motivados por preocupações mundanas e usam a espiritualidade para serem bem-sucedidos em realizar os seus desejos. Não há nada errado em usar a prática espiritual para obter o que desejamos. As pessoas sempre fizeram oferendas os deuses a fim de ter a garantia de colheitas abundantes. Entretanto, deveria ficar claro que no âmago dessa motivação se assenta o desejo de nossa própria satisfação. O perigo dessa motivação está em pensarmos que estamos nos transformando em pessoas menos mundanas, quando o que acontece é que distorcemos a prática para fortalecer nossa zona de conforto. Isso é uma cilada comum, não um crime.
   A motivação amplia-se ainda mais quando começamos a pensar em como nossos atos presentes podem nos afetar depois da morte. Essa motivação maior provém da percepção da vasta interligação de causa e efeito, e do fato de nossas atividades atuais afetarem diretamente o que acontecerá conosco no futuro. 
   Todas essas motivações são consideradas pequenas, porque estão centradas em nossa própria felicidade, em oposição à felicidade dos outros. No entanto, cada uma delas é um pouco maior do que a anterior, porque sua perspectiva é mais ampla. O que assinala a fronteira entre uma pequena motivação e uma grande é a mudança de enfoque, de nossa própria felicidade para a felicidade dos outros. 

Skayong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".   

A simplicidade.

   A pessoa simples vive da mesma maneira que respira, sem grandes esforços ou glórias, sem grandes afetações e sem vergonha. A simplicidade não é uma virtude que se deve adicionar à existência. É a existência em si, desde que nada lhe seja adicionado. Sem outra riqueza que tudo. Sem outro tesouro que nada. A simplicidade é liberdade, leveza, alegria, transparência. Tão simples quanto o ar, livre como o ar. A pessoa simples não se leva demasiadamente à sério, nem faz de qualquer coisa uma tragédia. Ela segue o seu caminho de bom humor, com o coração leve, a alma em paz, sem um objetivo, sem nostalgia, sem impaciência. O mundo é o seu reino, e isso lhe basta. O presente é a sua eternidade, e a pessoa se delicia com ele. Não precisa provar nada, já que não precisa manter as aparências, e não busca nada, já que tudo está diante de si. Há algo mais simples do que a simplicidade? Mais leve? A simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos. 

André Comte-Sponville em "Pequeno tratado das grandes virtudes".    

Por que mudar?

   O ensino dos valores humanos é em geral considerado uma incumbência da religião ou da família. A espiritualidade e a vida comtemplativa são reduzidas, assim, a meros complementos vitamínicos da alma. Os conhecimentos filosóficos que adquirimos são quase sempre distantes da nossa prática, e cabe ao indivíduo escolher suas próprias regras de vida. Mas em nossa época, a pseudoliberdade de fazer tudo o que passa pela cabeça e a falta de referências deixam o indivíduo infeliz desamparado. As considerações abstratas em geral incompreensíveis da filosofia contemporânea somadas ao ritmo febril da vida cotidiana e à supremacia da diversão e do entretenimento deixam pouco lugar para a busca de uma fonte de inspiração autêntica quanto à direção que podemos dar à nossa vida. 
   É necessário reconhecer que oferecemos uma resistência fenomenal à mudança. Não falamos apenas da alegria e do vigor com que a nossa sociedade adota como tendência as novidades superficiais, mas de uma inércia profunda no que tange a qualquer transformação genuína do nosso modo de ser. A maior parte do tempo não queremos nem ouvir da possibilidade de mudar e preferimos tratar com escárnio aqueles que buscam soluções alternativas. Ninguém quer ser raivoso, ciumento ou orgulhoso, mas a cada vez que cedemos a essas emoções, usamos a desculpa que isso é normal, faz parte dos altos e baixos da vida.
   Então, por que mudar? Seja você mesmo! Divirta-se bastante, compre um carro novo, mude de ares, consiga uma nova amante, tenha tudo, farte-se de tudo que é supérfluo, mas, acima de tudo, jamais toque no essencial, porque isso exige um trabalho duro, um esforço verdadeiro. Uma atitude como essa seria justificada se estivéssemos satisfeitos com o nosso destino. Mas estamos mesmos? Citando Alain mais uma vez: "Os insanos são mestres no proselitismo e, principalmente, relutam em curar-se." 

Matthieu Ricard em "Felicidade: a prática do bem-estar".

Derrubando nossos muros interiores...

   À medida que as dores que nos afligem ficam mais fortes, o nosso universo mental se contrai. Eventos e pensamentos continuamente colidem com os muros da nossa prisão interior e retornam mais rápidos e mais fortes, produzindo mais feridas a cada ir e vir. Portanto, precisamos ampliar nosso horizontes interiores até que não haja mais muros em que as emoções negativas possam rebater. Quando desabam esses muros, construídos tijolo a tijolo pelo eu, os projéteis do sofrimento erram o alvo, desaparecendo na vasta extensão da liberdade interior. Percebemos, então, que o nosso sofrimento era um simples esquecer-se da nossa verdadeira natureza, que permanece intocada sob a névoa das emoções. É essencial desenvolver e sustentar esse alargamento dos horizontes internos. Pois os eventos exteriores e pensamentos passarão a surgir como estrelas que se refletem na superfície calma de um vasto oceano, sem pertubá-lo.

Matthieu Ricard em "Felicidade: a prática do bem-estar".  

Apenas um espelho...

   Poderíamos pensar que a ignorância e as emoções negativas são inerentes ao fluxo da consciência e que tentar livrar-nos delas é como lutar contra uma parte de nós mesmos. Mas o aspecto mais fundamental da consciência, a pura faculdade de conhecer - aquilo que chamamos de qualidade "luminosa" da mente -, não contém ódio nem desejo. Um espelho reflete tanto a face raivosa quanto a sorridente. A própria qualidade desse espelho permite que apareçam nele incontáveis imagens sem que qualquer delas lhe pertença. Na verdade, se a face raivosa fosse intrínseca ao espelho, poderia ser vista o tempo todo e isso impediria o surgimento dos pensamentos. No entanto, nenhum desse pensamentos pertence à natureza fundamental da mente. A experiência da introspecção mostra, ao contrário, que as emoções negativas são estados mentais transitórios que podem ser aniquilados pelas emoções positivas que lhe são opostas, agindo como antídotos. 

Matthieu Ricard em "Felicidade, a prática do bem estar".