Archive for Julho 2010

Ajustando o foco...

   Dizem que o Buda ensinou 84 mil métodos para ajudar as pessoas em vários níveis de entendimento a reconhecer o poder da mente. Não estudei todos eles, de modo que não posso jurar que esse número seja exato. Ele pode ter ensinado 83.999 ou 84.001. Entretanto, a essência de seus ensinamentos pode ser reduzida a um único ponto: a mente é a fonte de toda a experiência e, ao mudar a direção da mente, podemos alterar a qualidade de todas as nossas experiências. Quando transforma sua mente, tudo o que você vivencia é transformado. É como colocar um par de óculos com lentes amarelas: subitamente, tudo o que você vê é amarelo. Se colocar óculos com lentes verdes, tudo o que você vê é verde.   
  A clareza, nesse sentido, pode ser entendida como o aspecto criativo da mente. Tudo o que você percebe é captado pelo poder de sua consciência. Na verdade, não há limites para a capacidade criativa de sua mente. Esse aspecto é a consequência natural da união entre a vacuidade e a clareza. Ele é conhecido em tibetano como magakpa, ou "desimpedimento". Algumas vezes, magakpa é traduzido como "poder" ou "habilidade", mas o significado é o mesmo: a liberdade da mente para vivenciar qualquer coisa e tudo, seja o que for.   

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

Desconstruindo o eu...

   Iniciar a prática da meditação é a melhor coisa que você pode fazer para beneficiar a sua vida e a dos que estão à sua volta. Durante muitos milhares de anos, a meditação tem sido praticada de acordo com diferentes tradições. No budismo, a meditação não é praticada apenas pelo relaxamento, mas como método para chegar à iluminação. Assim, a prática da meditação e a postura de pernas cruzadas, que aparece nas representações dos Budas, são intensamente sagradas.
   Todo o sofrimento vem da mente; a liberdade suprema vem do estudo da mente. A meditação visa reduzir a atividade mental e iniciar o processo de densconstrução do egocentrismo. A meta da meditação é fazer com que você tome conhecimento do seu espaço interior e de quão vasto ele é. A meditação é o laboratório em que você desconstroi o eu. Segundo se diz, o nirvana começa quando a mente passa a olhar para dentro em vez de reagir a tudo o que há fora dela.
   Quando começar a meditar, faça pequenas sessões de cinco, dez ou até quinze minutos. Crie o hábito de praticar em breves sessões diárias, passando a períodos mais longos. Um momento excelente para praticar é de manhã, logo ao acordar. Nesse horário não é difícil encaixar uma sessão curta na rotina, que vai prepará-lo para o resto do dia. Comece com a meditação samatha, que consiste em observar a respiração, e passe à vipassana quando estiver preparado. 

Ralph Quinlan Forde em "O livro da medicina tibetana". 

Prana, posturas corporais e meditação.

   Todas as experiências que temos, estejamos acordados ou sonhando, têm uma base energética. Essa energia vital é chamada lung em tibetano, mas, no Ocidente, é mais conhecida por seu nome sânscrito, prana. A estrutura que constitui a base de qualquer experiência é uma combinação exata de várias condições e causas. Se somos capazes de entender por que e como uma experiência está ocorrendo e reconhecer sua dinâmica mental, física e energética, então conseguiremos também reproduzir essas experiências, ou alterá-las. Isso nos permitirá gerar experiências que sustentem a prática espiritual e evitar aquelas que são prejudiciais.
   Na vida diária, assumimos diferentes posições corporais, sem pensar em seus efeitos. Quando queremos relaxar e conversar com os amigos, procuramos uma sala com cadeiras e sofás confortáveis. Isso aumenta a experiência de calma e relaxamento e induz a uma conversa distraída. Mas, quando estamos ativos em discussões de trabalho, nos dirigimos a um escritório com cadeiras que nos mantêm eretos e menos relaxados. Isso nos dá suporte ao trabalho e aos esforços criativos. Se quiséssemos descansar em silêncio, poderíamos ficar no portão, sentados em um outro tipo de assento, colocado de modo que pudéssemos apreciar a paisagem e o fluxo de ar. Quando nos cansamos, dirigimo-nos ao quarto e assumimos uma postura completamente diferente para induzir o o sono.
   De modo diferente, assumimos várias posturas em diferentes tipos de meditação, para alterar o fluxo do prana no corpo - manipulando os canais (tsa) que são condutos de energia no corpo - e para abrir diversos pontos energéticos focais, os chakras. Ao fazer isso, evocamos diferentes tipos de experiências. Essa é também a base dos movimentos do yoga. Guiar conscientemente a energia pelo nosso corpo permite um desenvolvimento mais fácil e mais rápido da prática meditativa do que ocorreria se confiássemos apenas na mente. Além disso, também nos permite superar certos obstáculos na prática. Sem usar o conhecimento do prana e de seu movimento pelo corpo, a mente pode ficar enredada em seus próprios processos.

Tenzin Wangyal Rinpoche em "Os yogas tibetanos do sonho e do sono".      

A alegria do Ser.

   Faça uma lista das atividades cotidianas que você executa com frequência. Inclua aquelas que considera desinteressantes, chatas, entediantes, irritantes ou estressantes. No entanto, não acrescente nada que você odeia ou detesta fazer - esses são casos para aceitação ou para deixar de realizar essas ações. Da relação podem constar a ida para o trabalho e a volta para a casa, a compra de mantimentos, a preparação da comida ou qualquer coisa que você considere maçante ou estressante na sua rotina diária. Depois, quando estiver executando essas atividades, permita que elas sejam um veículo para o estado de alerta. Esteja absolutamente presente no que está fazendo e sinta sua atenção, o silêncio vivo dentro de você como pano de fundo desse ato. Logo descobrirá que, em vez de estressante, monótona ou irritante, sua ação no estado de consciência elevada acaba se tornando agradável. Para ser mais preciso, o que lhe dá prazer não é a ação externa em si, mas a dimensão interna da consciência que flui para ela. Isso é encontrar a alegria do Ser no que você está executando. Caso sinta que não há significado na vida ou que ela está cheia de tensão ou tédio, é porque não incorporou essa dimensão. Agir com consciência desperta ainda não se tornou seu objetivo principal. 
   A alegria do Ser é a alegria de estar consciente. 

Eckhart Tolle em "Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência".       

De onde surge a ação correta?

   A presença é um estado de grande amplitude interna. Quando estamos presentes, perguntamos: "Como devo responder às necessidades desta situação, deste momento?" Na verdade, nem sequer precisamos fazer essa pergunta. Estamos em silêncio, abertos ao que é. Trazemos um nova dimensão à situação: espaço. Então observamos e escutamos. Assim nos tornamos um com a situação. Sempre que, em vez de reagirmos a uma circunstância, nos fundimos a ela, a solução surge da própria circunstância. Na verdade, não somos nós, a pessoa, que estamos olhando e escutando, mas o silêncio alerta em si. Então, se a ação é possível ou necessária, a executamos ou, mais exatamente, a ação correta acontece por nosso intermédio. A ação correta é aquela que é adequada para o Todo. Quando ela é consumada, o silêncio alerta e amplo permanece.
   Toda a criatividade surge da amplitude interior. Depois que a criação acontece e alguma coisa toma forma, precisamos ficar vigilantes para que as noções de "eu" e "meu" não apareçam. Se nos atribuirmos o crédito pelo que conseguimos fazer, é porque o ego está de volta e o amplo espaço tornou-se obscurecido.

Eckhart Tolle em "Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência". 

Quem morre?

   Quem morre? O corpo envelhece, para de funcionar como um organismo vivo e entra em decadência. Isto é inevitável. Mas, quem é este "eu" que morre? Será o sentido do "eu" que tem sido cultivado na vida nada mais é do que uma ficção baseada neste corpo, neste cérebro, nesta história pessoal? Com a morte, o corpo não sustenta mais nenhum tipo de ego, porque o cérebro acaba. A história pessoal termina com a morte.
   A conscientização não-nascida continua além da morte do corpo físico e da dissolução pessoal do ego. A consciência não-nascida não morre, porque ela nunca nasceu. É não-nascida durante a vida e não cessa após a morte. Se as ficções autocriadas do "eu" e do "meu" são liberadas antes ou durante o processo da morte, é possível compreender o estado sem morte. Ninguém morre quando a ficção do "eu" é liberada e o estado não-nascido é compreendido. Se você é capaz de permanecer na natureza da sua própria conscientização, a não-nascida, enquanto estiver morrendo, o despertar espiritual estará muito próximo. Se avaliar a conscientização não-nascida durante a vida, atingirá o estado sem morte aqui e agora, antes da morte física. 

B. Allan Wallace em "Budismo com atitude".     

Estabilizando a mente...

   A parte do dia em que ficamos acordados tem cerca de dezesseis horas e a mente fica ativa o tempo todo. Frequentemente parece que não há tempo suficiente e muito do tempo que temos é gasto em distração e em experiências desagradáveis. O mundo moderno parece estar constantemente nos fazendo exigências - cuidar do trabalho e da família, assistir filmes, olhar as vitrines, esperar no trânsito, conversar com os amigos - mil coisas a prender a nossa atenção e desviá-la para longe até o dia se transformar num borrão que leva à exaustão e à sede por ainda mais distração que sirva como escape. A todo momento, somos afastados de nós mesmos. Viver deste modo não ajuda nenhuma prática, nem tampouco o yoga do sonho. Por isso, hábitos simples e regulares que nos levem a retomar esse contato com nós mesmos, e a nos tornarmos mais presentes devem ser cultivados. 
   Cada respiração pode ser uma prática. Na inspiração, imaginamo-nos absorvendo energias puras, purificadoras e relaxantes. E na expiração, imaginamo-nos expulsando todos os obstáculos, tensões e emoções negativas. Isto não é uma coisa que exige um lugar especial para se sentar. Pode ser feito no carro a caminho do trabalho, enquanto se espera no sinal vermelho, em frente ao computador, enquanto se prepara uma refeição, limpa a casa, ou caminha.
   Uma prática simples, mas poderosa é tentar manter a presença no corpo continuamente durante todo o dia. Sinta o corpo como um todo. A mente é pior do que um macaco louco saltando de uma coisa para outra; é uma dificuldade para ela se focar em algo. O corpo, porém, é uma fonte de experiência mais estável e constante, e utilizá-lo como uma âncora para a consciência vai ajudar a mente a se tornar mais calma e mais focada. Do mesmo modo que a participação da mente é essencial na organização e manutenção dos aspectos físicos da vida, a mente precisa do corpo a fim de estabilizar-se na calma presença, o que é fundamental para todas as práticas. 

Tenzin Wangyal Rinpoche em "Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono".       

Odiar o ódio...

   O único alvo ou objeto que continua sendo posível para o ódio é o próprio ódio. Odiar o ódio: este é o inimigo pérfido, obstinado e inflexível que incansavelmente transtorna e destrói vidas. Por mais apropriada que a paciência sem fraqueza possa ser diante daqueles que consideramos nossos inimigos, é totalmente inadequado ser paciente com o nosso próprio ódio, independentemente das circunstâncias. Como disse Khyentse Rimpoche: "É hora de redirecionar o ódio para longe dos seus alvos habituais, os nossos assim chamados inimigos, e voltá-lo contra ele mesmo. É o ódio o seu inimigo verdadeiro e a ele que você deve destruir." De nada adianta tentar reprimi-lo ou revertê-lo, devemos ir às suas raízes e arrancá-las de uma vez. Vejamos mais uma vez as palavras de Etty Hillesum: "Eles falam de extermínio. É melhor exterminar o mal dentro de um homem do que exterminar o próprio homem." Assim, ele confirma, doze séculos mais tarde, as palavras do poeta budista indiano Shantideva: "Quantos malfeitores matarei? O número deles é infinito como o espaço. Mas se eu matar o espírito do ódio, todos os meus inimigos serão mortos de uma só vez."
  
Matthieu Ricard em "Felicidade: a prática do bem-estar".

Antídotos...

   O antídoto contra o ódio é a meditação sobre o amor. Para vencer o apego, devemos trabalhar sobre os skandhas ou agregados. Para fazer frente à ignorância, devemos nos concentrar no movimento do alento e na interdependência. A raiz da agitação do espírito é a ignorância, que nos impede de ver a verdadeira natureza das coisas. O espírito é trazido sob controle pela purificação de nossa falsa percepção da realidade. Tal é o ensinamento de Buda. É pelo treinamento do espírito que podemos transformar as condições dentro das quais agimos, falamos e pensamos.

S.S. Dalai Lama em "Princípios de Vida".

O silêncio...

   Costuma-se dizer: "O silêncio é a linguagem de Deus, e tudo mais é tradução malfeita." O silêncio é realmente outra palavra para espaço. Ao tomarmos consciência dele quando o encontramos na nossa vida, estabelecemos uma ligação com a dimensão sem forma e eterna dentro de nós, aquela que está além do pensamento e do ego. Pode ser o silêncio que envolve o mundo da natureza, a tranquilidade do nosso quarto nas primeiras horas da manhã ou o intervalo entre os sons. O silêncio não tem forma - é por isso que, por meio do pensamento, não conseguimos ter consciência dele. O pensamento é forma. Ter consciência do silêncio significa ficar em silêncio. Ficar em silêncio é estar consciente sem pensamento. Nunca somos nós mesmos com tanta intensidade do que quando estamos em silêncio. Nessas ocasiões, somos quem fomos antes de assumir temporariamente essa forma física e mental que chamamos de pessoa. Também somos aquele que seremos depois que a forma se dissolver. Quando estamos em silêncio, somos quem somos além da nossa existência temporal: a consciência - incondicional, sem forma e eterna.

Eckhart Tolle em "Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência".     

Em sintonia com a totalidade...

   O broto não quer nada porque ele e a totalidade são uma coisa só, e a totalidade age por meio dele. "...Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão, no auge de sua glória, não se vestiu como um deles." Poderíamos dizer que a totalidade - a Vida - quer que o broto se torne uma árvore, no entanto ele não se vê separado da vida e, assim, não deseja nada para si. O broto e o que a Vida quer estão unidos. É por isso que ele não está preocupado e nem estressado. E, se tiver que morrer prematuramente, morrerá com tranquilidade. Será tão resignado na morte quanto foi na vida. Ele sente, por mais obscuro que isso pareça, que está enraizado no Ser, a Vida Única sem forma e eterna. 

Eckhart Tolle em "Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência".     

O tempo...

   O tempo é comparável a um pó muito fino que, distraídos, deixamos escorregar por entre os nossos dedos sem nem ao menos perceber. Se lhe damos um bom uso, é a ponte por onde fazemos passar a trama dos nossos dias para fabricar o tecido de uma vida significativa. Portanto, tomarmos consciência de que o tempo é o nosso bem mais precioso torna-se essencial para a busca da felicidade. Isso não quer dizer que tenhamos de nos livrar daquilo que é agradável à vida, mas sim que é preciso descartar tudo o que nos leva a desperdiçá-la. Sem causar danos à pessoa, é necessário ter força de espírito para não ceder àquela voizinha que nos sussurra para concordarmos com as incessantes concessões às exigências da vida cotidiana. Por que hesitar e, fazer tabula rasa do supérfluo? Que vantagem há em nos dedicarmos ao superficial e ao inútil? Como diz Sêneca: "Não é que tenhamos pouco tempo, mas que o desperdiçamos demais."
   A vida é curta. Sempre perdemos, quando deixamos de lado as coisas essenciais, ou as adiamos ao nos deixarmos enredar pelas demandas incoerentes da sociedade. Os anos ou as horas de vida que nos restam são como uma substância preciosa que se desfaz, podendo ser desperdiçada sem que percebamos. Apesar do seu grande valor, o tempo não sabe proteger-se a si mesmo, é como uma criança que pode ser levada pela mão por qualquer pessoa que passe. 
   
Matthieu Ricard em "Felicidade: a prática do bem-estar".

Tomar sua vida como o caminho...

   O simples ato de andar na rua pode ser uma grande oportunidade de desenvolver a vigilância. Com que frequência você vai a algum lugar, como dirigir ao supermercado ou caminhar para um restaurante na hora do almoço, e se encontra no destino sem ao menos perceber como chegou lá? Esse é um exemplo clássico de permitir que o macaco louco atue sem controle, lançando todo tipo de distrações que não apenas impedem que você vivencie a plenitude do momento presente, mas também lhe roubam a chance de focar e treinar sua consciência. A oportunidade aqui é decidir conscientemente conduzir sua atenção ao que o cerca. Olhe os prédios pelos quais você passa, para as outras pessoas na calçada, para o trânsito nas ruas, para as árvores que estão plantadas no caminho. Quando você presta atenção ao que vê, o macaco louco se acalma. Sua mente fica menos agitada e você começa a desenvolver um senso de calma.
   Você também pode voltar a atenção à sensação física de caminhar, ao movimento de suas pernas, ao toque de seus pés no chão, ao ritmo de sua respiração ou de seu coração. Isso funciona mesmo quando você estiver com pressa e, na verdade é um excelente método para combater a ansiedade que normalmente nos envolve quando tentamos chegar logo a algum lugar. Você ainda pode andar rapidamente enquanto volta sua atenção às próprias sensações físicas ou às pessoas, locais ou objetos pelos quais passa pelo caminho. Permita-se pensar: "Agora estou andando na rua...Agora estou vendo um prédio...Agora estou vendo uma pessoa usando camiseta e jeans...Agora meu pé esquerdo está tocando o chão...Agora meu pé direito está tocando o chão..."

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".  

Mergulhando na consciência...

   A posição budista é que aquilo que experenciamos como prazer é meramente um atenuante relativo do nosso descontentamento. Não existe nada de errado com a felicidade derivada das alegrias dependentes dos estímulos, mas, da perspectiva budista, estes estados de felicidade são meramente um atenuante passageiro do sofrimento. Quando um estímulo agradável é retirado, a mente volta ao seu estado habitual, um estado que é aflição, um estado que é sofrimento. A verdadeira fonte do sofrimento encontra-se mais fundo em nossa experiência e oculta pelos atenuantes temporários. 
   Existem alguns testes simples para a hipótese budista. Nas situações de privação sensorial, quando os estímulos são retirados, manifesta-se o tédio, uma forma sutil de sofrimento mental. Sem nada para estimular a mente num padrão agradável, seguimos do tédio para a solidão, a inquietude e a infelicidade. Pascal disse que a primeira aflição do homem moderno é a "incapacidade de se sentar calmamente em seu quarto". Ficar sozinho por um período ininterrupto é um tipo de tortura chamado confinamento solitário. Em um ambiente de privação sensorial, no qual a estimulação surge apenas da mente, faz com que, com o passar do tempo, a mente se torne caótica e entre em colapso. 
   Da perspectiva budista, situações de confinamento solitário ou de privação sensorial não criam dificuldades. Pelo contrário, essas situações revelam problemas que já estavam ali. O que acontece quando estamos sozinhos ou sensorialmente privados é o mesmo que está acontecendo todo o tempo, mas que está enterrado sob os estímulos. 
   Alan Wallace em "Budismo com atitude: o treinamento da mente em 7 etapas".      

A fonte genuína da felicidade.

   Em termos gerais, altruísmo é a fonte genuína de benefício e felicidade. Portanto, se tivéssemos nascido em uma esfera da existência onde o seu desenvolvimento não fosse possível, estaríamos em uma situação sem esperança, o que felizmente não é o caso. Como seres humanos, temos as faculdades apropriadas para o desenvolvimento espiritual, dentre as quais a mais preciosa é o cérebro humano. É muito importante não desperdiçarmos a grande oportunidade que nos é oferecida por nossa condição de seres humanos, pois o tempo é um fenômeno momentâneo e inesperado. É da natureza das coisas que elas sigam um processo de mudança e desintegração. Por isso, é de extrema importância darmos significado a nossas vidas.
   Como dito anteriormente, assim como temos o direito natural de trabalhar pela nossa própria felicidade, também o têm, na mesma proporção todos os seres conscientes. Qual, portanto, a diferença entre eu e os outros? A única diferença é que quando se fala dos próprios afazeres, não importa quão importantes sejam, a preocupação está voltada para uma única pessoa; enquanto que as questões dos outros dizem respeito ao bem-estar de um número infinito de seres vivos. A diferença entre as duas preocupações está na quantidade.
   Além disso, se um indivíduo não tivesse qualquer responsabilidade com os outros e deles fosse totalmente independente, a indiferença desse indivíduo com os outros seria então compreensível; mas isto não existe. Todos os seres vivos sobrevivem dependendo uns dos outros; mesmo as experiências de felicidade e de sofrimento provêm da interação com os outros. Essa dependência não se limita à sobrevivência do dia a dia; todo o desenvolvimento espiritual de uma pessoa também depende das outras. Somente em relação aos outros é que se podem cultivar qualidades humanas como compaixão, amor, tolerância, generosidade, etc.

S.S. o Dalai Lama em "O livro da felicidade: um guia prático para os estágios da meditação".  

Qual é a melhor técnica de meditação?

   Circunstâncias diferentes requerem providências diferentes, de forma que é sempre útil ter várias opções à disposição. Esse princípio se aplica praticamente a todos os aspectos da vida. Por exemplo, nos negócios ou nos relacionamentos pessoais, algumas vezes é melhor levar um tempo compondo, revisando e comunicando suas idéias por e-mail enquanto em outras ocasiões um telefonema ou mesmo uma reunião presencial seria mais efetiva.
   Da mesma forma, em termos de meditação, a técnica mais apropriada depende da situação específica, bem como de seu temperamento e suas capacidades pessoais. Quando você estiver lidando com emoções como a tristeza, a raiva ou o medo, por exemplo, algumas vezes a prática do tonglen pode ser a melhor abordagem. Algumas vezes, utilizar a própria emoção como um foco para a prática shinay básica pode funcionar melhor. Muitas vezes, a única forma de encontrar a técnica que funciona melhor para você é por tentativa e erro. 
   O importante é escolher o método que lhe agrada mais e trabalhar com ele por algum tempo. Se você for uma pessoa mais "visual", tente trabalhar com esta forma de meditação para acalmar a mente. Se você for um tipo de pessoa mais alerta para as sensações físicas, tente escanear seu corpo e concentrar-se na respiração. Se você for do tipo "verbal", tente trabalhar com um mantra. A técnica em si não importa. O importante é aprender a repousar a mente - para trabalhar com ela, e não ser trabalhado por ela.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".        

Guardador de rebanhos...

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro.