Archive for Novembro 2010

Onde está o colar?

   Quando um arco-íris aparece luminoso no céu, você pode contemplar suas belas cores, mas não pode pegá-lo e usá-lo como roupa. O arco-íris nasce da conjunção de diferentes fatores, mas nada nele pode ser apreendido. O mesmo se dá com os pensamentos. Manifestam-se na mente, mas são desprovidos de realidade tangível ou de solidez intrínseca. Nenhuma razão lógica justifica, então, que os pensamentos - que são insubstanciais - disponham de tanto poder sobre a pessoa, não há nenhuma razão para que você se torne seu escravo.
   A infinita sucessão de pensamentos passados, presentes e futuros nos leva a acreditar que existe alguma coisa que estaria ali de forma inerente e permanente. Mas, na verdade, os pensamentos passados estão tão mortos quantos os cadávares, e os pensamentos futuros ainda não surgiram. Então, como essas duas categorias de pensamentos que não existem poderiam constituir uma entidade que seja existente? E como o pensamento presente poderia se apoiar em duas coisas inexistentes?
   Contudo, a vacuidade dos pensamentos não é simplesmente um vazio, como se pode dizer do espaço. Há ali a presença, uma consciência espontânea, uma clareza comparável àquela do sol que clareia as paisagens e permite ver as montanhas, os caminhos, os precipícios.
   Ainda que a mente seja dotada dessa consciência intrínseca, afirmar que há uma mente é colar o rótulo de realidade sobre algo que não o é, é anunciar a existência de uma coisa que é apenas um nome dado a uma sucessão de acontecimentos. Podemos chamar de 'colar' o objeto feito de pedras enfiadas num fio, mas esse 'colar' não é uma entidade dotada de existência intrínseca. Quando o fio arrebenta, onde está o colar?

Dilgo Khyentsé Rinpotché.      

Cutivando a concentração perfeita (samadhi).

   Os textos de meditação ensinam nove métodos para cultivar a atenção, estabelecer a serenidade mental e tornar a mente mais estável. Lembremos que, nesse caso, a consciência plena consiste em que se permaneça continuamente atento ao objeto de concentração escolhido.
   1. Concentrar a mente, ainda que de maneira breve no início, num objeto, conforme as instruções, evitando que ela se deixa levar pelas imagens ou pelos pensamento discursivos.
   2. Situar a mente continuamente sobre esse objeto, durante um período de tempo maior, sem se distrair. Para consegui-lo temos de nos lembrar claramente dos ensinamentos de como manter a mente concentrada no seu suporte, guardá-los na memória e colocá-los em prática com cuidado.
   3. Trazer a mente de volta ao seu objeto cada vez que percebemos que a distração a afastou dele. Para isso, temos de reconhecer que a mente esteve distraída, identificar a emoção ou o pensamento que provocou a distração e utilizar o antídoto apropriado. Pouco a pouco, tornamo-nos capazes de mantê-la calma e estável durante longos períodos de tempo, tendo uma concentração mais clara.
   4. Situar a mente com cuidado: quanto mais firme é a mente, mais ela é concentrada, mais tendência temos para meditar. Mesmo se a atenção ainda não for perfeita, conseguiremos não perder mais completamente o suporte da meditação e nos livraremos das formas mais pertubadoras da agitação mental.
   5. Controlar a mente: quando a concentração mergulha no torpor, reavivamos a acuidade, a clareza da presença atenta e renovamos a inspiração e o entusiasmo, considerando os benefícios da concentração perfeita (samadhi). 
   6. Acalmar a mente: quando a acuidade se torna muito restritiva e a concentração é abalada pela agitação mental sutil que toma a forma de uma pequena conversação discreta por trás da atenção, o fato de se considerar os perigos da agitação e da distração acalma a mente, tornando-a clara e límpida, à imagem de um som puro emitido por um instrumento de música bem afinado.
   7. Pacificar completamente a mente recorrendo à atenção sustentada e entusiasta a fim de abandonar todo o apego às expectativas meditativas. Estas podem revestir vários aspectos, tais como a felicidade, a clareza ou a ausência de pensamentos discursivos, e se manifestar também por movimentos espontâneos de alegria e tristeza, de confiança inabalável ou de medo, de exaltação ou de desânimo, de certeza ou de dúvida, de renúncia às coisas destes mundo ou de paixão, de devoção intensa ou de vistas negativas. Todas essas experiências podem surgir sem razão aparente. Elas são o sinal de que mudanças profundas estão acontecendo em nossa mente. Precisamos evitar nos identificar com essas experiências e não lhes dar mais importância do que às paisagens que vemos desfilar pela janela de um trem. 
   Graças à atenção perfeitamente pacificada, essas experiências esmaecerão por si mesmas sem pertubar a mente, e esta conhecerá, então, uma profunda paz interior. 
   8. Manter a atenção concentrada em um ponto: depois de eliminar a inércia e a agitação mental, manter a atenção estável e clara em um ponto durante uma sessão de meditação. A mente é como uma lâmpada protegida do vento cuja chama, estável e luminosa, clareia com o máximo de sua capacidade. Basta um mínimo esforço para estabelecer a mente num fluxo da concentração em que ela se mantém, em seguida, sem dificuldade, permanecendo em seu estado natural, livre de restrições e pertubações.
   9. Repousar num estado de perfeito equilíbrio: quando a mente está plenamente familiarizada com a concentração em um único ponto, ela permanece num estado de serenidade que acontece espontaneamente e se perpetua sem esforço.          

Matthieu Ricard em "A arte de meditar".

A verdadeira liberdade interior...

   A liberdade interior é, em primeiro lugar, libertar-se da ditadura do "eu" e do "meu", do "ser" cativo e oprimido, e do "ter" que invade tudo, deste ego que entra em conflito com tudo que não gosta e busca desesperadamente se apropriar daquilo que cobiça. Saber encontrar o essencial e não se inquietar com aquilo que é acessório traz um profundo sentimento de contentamento, sobre o qual as fantasias do eu não tem nenhum poder. "Aquele que experimenta um contentamento assim", diz o provérbio tibetano, "tem um tesouro na palma da sua mão".
   Dessa maneira, ser livre significa se emancipar das aflições que dominam e obscurecem a mente. Significa tomar a vida na nossa própria mão, em vez de abandoná-la às tendências criadas pelo hábito e pela confusão mental. Se um marinheiro solta o timão e deixa as velas da embarcação, ao sabor do vento, o navio ao sabor das correntes, isso não se chama liberdade - chama-se ficar à deriva. Liberdade, aqui, significa ter o leme nas mãos e velejar na direção que escolhemos.

Matthieu Ricard em "Felicidade, a prática do bem-estar".   

A necessidade de perdoar...

   "Se praticarmos o olho por olho, dente por dente, logo o mundo estará cego e desdentado."

Gandhi.

Um olhar para dentro...

   Como aceitamos o fato de não consagrar nem mesmo alguns breves momentos do dia à introspecção? Estamos endurecidos, insensíveis, blasés, a esse ponto? Ficamos realmente satisfeitos com uma conversinha espirituosa e um pouco de entretenimento banal? Vamos olhar para dentro. Há muito a fazer.
   Vale a pena dedicar um momento de cada dia para cultivar o pensamento altruísta e observar o funcionamento da mente. Que não haja dúvidas: essa investigação nos ensinará mil vezes mais, e de maneira muito mais duradoura, do que uma hora dedicada a ler as notícias locais ou os resultados esportivos! Não se trata de ignorar o mundo, mas de fazer bom uso do nosso tempo. De qualquer maneira, não precisamos ter medo de cair no extremo, vivendo como vivemos, nesta era de distrações onipresentes, em que o acesso à informação geral nos leva bem perto do ponto da saturação. Trata-se, sim, de que estamos estagnados no extremo oposto: o grau zero de contemplação. Podemos dedicar a ela alguns segundos, quando algum revés emocional ou profissional nos força a "pôr as coisas em perspectiva". Mas como e por quanto tempo? Com muita frequência, só ficamos esperando que "passe o mau momento", buscando ansiosamente alguma distração para "mudar as idéias" ou "refrescar a mente". Mudam os atores e o cenário, mas a peça continua a mesma.
   Por que não sentar-se à margem de um lago, no topo de uma montanha, ou em uma sala tranquila, para examinar de que somos feitos, no mais profundo de nós mesmos? Primeiro, examinar o que mais nos importa na vida, e depois, estabelecer as prioridades entre as coisas essenciais e as outras atividades que forçadamente impomos ao nosso tempo.

Matthieu Ricard em "Felicidade, a prática do bem-estar".

Um ir e vir...

   Deveríamos evitar até as menores ações negativas e nos concentrar nas mais ínfimas ações positivas sem subestimar seu valor, pois a felicidade e o sofrimento são determinados por nossas ações. Tudo o que experimentamos é, e sempre foi, programado por nossas ações, as quais dependem de nossa atitude. O que quer que tenhamos feito ou pensado em nossa juventude provoca felicidade ou sofrimento em nossa velhice. Além do mais, o que fazemos nesta vida determina a felicidade e o sofrimento da próxima vida. E as ações deste kalpa (ciclo, período) resultarão nas experiências dos kalpas futuros. É o que entendemos por lei do karma, a lei da causa e efeito. 

S.S. Dalai Lama em "Princípios de vida".   

Adianta reclamar?

   Encontrar as amigas para reclamar da vida pode não ser uma boa ideia, mostra um estudo feito pela Universidade de Oklahoma. Um ombro amigo pode ajudar nos momentos difíceis, mas falar dos problemas o tempo todo aumenta o nível de hormônios do estresse como o cortisol. O efeito é maior nas mulheres, que costumam ficar mais tristes, irritadas ou deprimidas após uma conversa com as amigas.
- Focar nas emoções negativas traz um impacto ruim à saúde física e mental das mulheres - afirma a psicóloga Jennifer Byrd-Craven, coordenadora da pesquisa.
   Estudos ligam o estresse crônico à pressão alta, um sistema imunológico fraco e um acúmulo maior de gordura na região abdominal. Pessoas muito estressadas estão mais sujeitas a doenças como infartos e derrames. Segundo Jennifer, não há dúvidas de que ruminar os problemas com as amigas pode ajudar a criar laços mais fortes, mas também aumenta os níveis de estresse e ansiedade. No estudo, as 44 participantes tiveram que responder questionários sobre temperamento, estilo de vida e resolução de problemas. Depois, tinham que resolver algumas tarefas em grupo. Por amostras de saliva, os pesquisadores identificaram que o nível de estresse era maior naquelas mulheres que, em vez de criarem um plano para resolver um problema, ficavam discutindo todas as formas de lidar com a determinada tarefa.
- Enquanto discutimos problemas, ativamos a parte do cérebro relacionada ao controle do estresse. Quanto maior for a duração da conversa, maior o risco de acabar se contaminando com a preocupação e a negatividade.

Fonte: O Globo online. http://tiny.cc/ouzys.

Cultivando a alegria...

"Inspirando, eu me sinto feliz. Expirando, eu me sinto feliz."
"Inspirando, eu me sinto alegre. Expirando, eu me sinto alegre."
"Inspirando, eu estou consciente das minhas formações mentais. Expirando, eu estou consciente das minhas formações mentais."
"Inspirando, eu acalmo as minhas formações mentais. Expirando, eu acalmo as minhas formações mentais."
  
   Os próximos exercícios da respiração consciente nos ajudam a retornar aos nossos sentimentos com o objetivo de desenvolver a alegria e a felicidade e a transformar o nosso sofrimento. Somos os nossos sentimentos. Se não cuidarmos deles, quem o fará por nós? Todos os dias, experimentamos sentimentos dolorosos, e precisamos aprender a cuidar deles. Nossos professores e amigos podem nos ajudar até certo ponto, mas somos nós quem devemos fazer esse trabalho. Nosso corpo e nossos sentimentos são o nosso território, somos o rei ou a rainha responsável por esse território. 

Thich Nhat Hanh em "Breath, you are alive". 
* caso deseje ler mais, por favor, clique no ícone abaixo da capa do livro.          

Reconhecendo e transformando as emoções.

   A palavra "emoção" provém do latim emovore, que significa "pôr em movimento". Uma emoção é, então, o que faz movimentar a mente, seja ela em direção a um pensamento nocivo, neutro ou benéfico. A emoção condiciona a mente e a faz adotar uma certa perspectiva, uma certa visão das coisas. Essa visão pode estar  de acordo com a realidade, no caso do amor altruísta e da compaixão, ou deturpada, no caso do ódio ou da avidez. Como enfatizamos acima, o amor altruísta é uma tomada de consciência do fato de que todos os seres desejam, como nós, ser libertados do sofrimento e se baseia no reconhecimento de sua interdependência fundamental, da qual participamos. O ódio, ao contrário, deforma a realidade ampliando os defeitos de seu objeto e ignorando as suas qualidades. Do mesmo jeito, o desejo ávido nos faz perceber seu objeto como desejável em todos os aspectos, ignorando seus defeitos. Deve-se convir que certas emoções são pertubadoras e outras benfazejas. Se uma emoção reforça nossa paz interior e nos incita ao bem do outro, podemos considerá-la como positiva ou construtiva; se destrói nossa serenidade, pertuba profundamente nosso espírito e nos leva a prejudicar os outros, ela é negativa ou pertubadora.
   O importante não é, então, esforçarmo-nos muito para suprimir nossas emoções, o que seria em vão, mas fazer com que elas contribuam para a nossa paz interior e nos levem a pensar, falar e agir de maneira bondosa com os outros. Para isso, devemos evitar ser o joguete impotente dessas emoções, aprendendo a dissolver as que são negativas à medida que surgem e cultivar as que são positivas. 
   Devemos compreender também que é o acúmulo e o encadeamento das emoções que determinam nossos humores, que duram alguns instantes ou dias, e formam, a longo prazo, nossas tendências e nossos traços de caráter. Assim, se aprendermos a administrar nossas emoções da melhora maneira, pouco a pouco, de emoção em emoção, dia após dia, acabaremos transformando nossa maneira de ser.     

Matthieu Ricard em "A arte de meditar".

Transformando o lixo em adubo.

   Na nossa consciência armazenadora existe uma semente maravilhosa chamada plena consciência, a capacidade de estar com a mente alerta para o que está acontecendo no momento presente. Essa semente pode estar fraca, porque raramente a regamos. Em geral, não vivemos nosso cotidiano com a mente desperta. Não nos alimentamos com a mente desperta. Não andamos com a mente desperta. Não falamos nem olhamos para as pessoas com a mente desperta. Vivemos distraídos. Mas há sempre uma oportunidade de vivermos a vida plenamente. Quando bebemos água, podemos estar conscientes de que estamos bebendo água. Quando andamos, podemos estar conscientes de que estamos andando. A plena consciência está ao nosso dispor a qualquer momento. 
   Embora a semente do despertar possa ser fraca, ela poderá se fortalecer rapidamente se usarmos a plena consciência em tudo o que fizermos. Para que a plena consciência cresça, ela precisa de alimento. Todos carregamos em nós sementes de plena consciência, bondade amorosa, compreensão e alegria. Essas sementes poderão se tornar belas flores se aprendermos a transformar em adubo o lixo do nosso ódio, discriminação, desespero e raiva. Observando profundamente a natureza do sofrimento e transformando essa energia existente em nós, estaremos ajudando a energia de felicidade e paz a se manifestar. 

Thich Nhat Hanh em "Transformações na consciência".   

Meditação e envelhecimento celular.

   Técnica milenar oriental, a meditação é conhecida por aumentar a concentração e proporcionar relaxamento. De acordo com estudo da Universidade da Califórnia, durante a meditação, a enzima telomerase (ligada ao sistema imunológico) tem sua ação intensificada. Resultado: quem medita, tem suas defesas ampliadas e passa a lidar melhor com o stress.
   Mas a meditação sozinha não resolve. "Por si só, ela não aumenta a atividade da telomerase", diz Clifford Saron, líder do estudo. Segundo ele, a meditação é apenas um dos mecanismos usados pelo corpo para aumentar o bem-estar psicológico do indivíduo. E é esse estado – e não o ato de meditar em si – que age diretamente sobre a atividade da telomerase nas células do sistema imunológico, que são as reais responsáveis por promover a longevidade nas células. "Atividades que aumentam a qualidade de vida podem ter efeitos profundos no organismo de uma pessoa", diz Saron.
   Para chegar aos resultados, a equipe de cientistas analisou sessenta pacientes durante três meses: metade praticou a meditação; os outros trinta, não, atuando apenas como grupo de controle da pesquisa. As taxas da telomerase se mostraram cerca de 30% mais elevadas nas células do sistema imunológico dos voluntários que meditavam. Foram esses pacientes que apresentaram, ainda, um aumento nas capacidades psíquicas, como melhora na percepção de controle (sobre a própria vida e arredores), atenção e nos propósitos da vida (sentido de vida e metas a longo prazo). Além disso, eles experimentaram diminuição da neurose ou das emoções negativas.
   Nobel - Co-autora do estudo, o primeiro a relacionar telomerase e meditação, Elizabeth Blackburn ganhou o prêmio Nobel de Medicina em 2009 pela descoberta da telomerase e dos telômeros, sequências do DNA que ficam no final dos cromossomos e tendem a se encurtar toda vez que uma célula se divide. Mas, sempre que a medida dos telômeros fica baixa, a célula tende a não se dividir mais e pode, eventualmente, morrer. É aí que entra a telomerase. A enzima é capaz de reconstruir o tamanho de um telômero, impedindo que ele entre em colapso. Estudos anteriores já apontavam a telomerase como o elo entre o stress psicológico e a saúde física.

Fonte: Revista Veja.

O poder do agradecimento sincero.

   Há muito, muito tempo, numa terra distante, bem distante, vivia um homem que parecia ter tudo - uma casa sólida, um emprego, dinheiro suficiente para comprar o que desejasse. Mas ele não era feliz, sentia-se vazio por dentro e achava que se descobrisse o significado da vida poderia então ser feliz. Leu todos os grandes livros na biblioteca local, mas não encontrou a resposta. Viajou de aldeia em aldeia conversando com homens sagrados e mulheres sábias, mas nenhuma das respostas continha a verdade. Então soube de uma anciã que vivia no topo da montanha mais alta na Terra. Todos disseram que ela conhecia o segredo. 
   Então o homem viajou por vários dias, atravessando florestas e aldeias, regatos e rios até finalmente chegar à montanha. Escalou até o pico mais alto, e sua excitação cresceu. Pensava:
   - Logo terei a resposta; logo serei feliz!
   Quando chegou ao topo, viu uma anciã vestida com farrapos, reunindo gravetos para o fogo, suas costas e membros torcidos pela artrite.
   - Viajei de uma grande distância e estou exausto pelo esforço, disse. - Por favor, revele-me o significado da vida!
   A velha mulher disse:
   - Muito obrigada!
   - De nada - respondeu o homem, pensando que a velha não tinha ouvido bem.
   - Qual o significado da vida? - gritou então em seu ouvido.
   - Muito obrigada - respondeu a mulher.
   Sem acreditar, o homem perguntou ofegante:
   - É isto? Isso é tudo? Tem certeza?
   - Muito obrigada - confirmou a mulher.
   O homem não achou que fosse uma boa resposta, mas decidiu dar uma oportunidade. Quando viajou de volta pelo caminho que viera, disse "obrigado" para todos que encontrava. "Obrigado, obrigado, obrigado!" Mas ainda não se sentia feliz.
   Estava fervendo de raiva e decidiu voltar até a anciã. Gritou para ela:
   - Comecei a dizer obrigado para todos, mas não funcionou, não me sinto feliz! Por favor, diga-me o significado secreto real e verdadeiro da vida.
   A mulher fez um gesto para que ele se aproximasse e disse:
   - Muito obrigada!

Conto zen extraído do livro "A arte do perdão" de Madeline Ko-I Bastis.       

A flor e o lixo.

   "Flor" e "lixo" são imagens usadas para descrever a natureza interdependente da ignorância e do despertar. Geralmente achamos que o despertar nada tem que ver com a ignorância. Colocamos o despertar de um lado da cerca, e a ignorância do outro, receando que a ignorância possa contaminar o despertar. Mas, na realidade, eles não podem ser separados dessa maneira. Se não houvesse ignorância e confusão, não poderia haver despertar. É no solo da própria ignorância que o despertar pode ser cultivado. Essa é a natureza do Co-surgimento Interdependente. Se você disser "Quero pôr um fim no ciclo de nascimento e morte. Só vou aceitar a libertação", estará mostrando que não entendeu a natureza do Co-surgimento Interdependente.
   Se jogar fora "isto" para achar "aquilo", nunca encontrará o que está procurando. "Aquilo" só pode ser encontrado "nisto". Buda nos adverte a não fugir de nada pensando em correr para uma outra coisa. Na verdade, a prática do budismo é a prática sem meta, sem objetivo. Se somos puros, calmos e temos a mente limpa, já estamos na Terra Pura. Ignorância e despertar são interdependentes. O nirvana só pode ser encontrado dentro do mundo de nascimento e morte. As aflições básicas, formações mentais nocivas tais como ambição, ódio, ignorância, orgulho, dúvida, nos causam sofrimento. Quando queremos despertar, passamos a fazer uso de nossas formações mentais a fim de transformá-las. 
   Se estamos quase morrendo de sede e alguém nos traz um copo de água barrenta, sabemos que é preciso encontrar um jeito de filtrá-la a fim de sobrevivermos. Podemos simplesmente jogá-la fora - mas essa água, embora não seja pura, é a nossa única esperança de salvação. Da mesma forma, temos que aceitar todas as nossas aflições, formações mentais, todas as dificuldade do mundo, nosso corpo e nossa mente, a fim de transformá-los. Se os rejeitamos, se procuramos fugir deles, nunca chegaremos ao fim desejado. Não há como escapar das coisas que odiamos. O único meio que existe é transformá-las em amor. 

Thich Nhat Hanh em "Transformações na consciência".  

Apenas uma porta de vaivém.

   Quando praticamos zazen, nossa mente sempre segue a respiração. Quando inalamos, o ar entra em nosso mundo interior. Quando exalamos, o ar sai para o mundo exterior. O mundo interior não tem limites e o mundo exterior também é ilimitado. Nós dizemos "mundo interior" e "mundo exterior", mas, na verdade, só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a garganta é uma espécie de porta de vaivém. O ar entra e sai como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa "eu respiro", o "eu" está a mais. Não há um "você" para dizer "eu". O que chamamos de "eu" é apenas uma porta de vaivém que se move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move, eis tudo. Quando sua mente está pura e calma o suficiente para seguir esse movimento, não há nada: nem "eu", nem mundo, nem mente, nem corpo. Só uma porta que vai e vem.
   Assim, quando praticamos o zazen, tudo o que existe é o movimento da respiração e, no entanto, estamos cônscios desse movimento. Não devemos nunca nos distrair. Mas estar consciente do movimento não significa estar consciente do eu pequeno, e sim da nossa natureza universal, ou natureza de Buda. Esta consciência é muito importante porque em geral somos unilaterais. Nossa compreensão da vida é dualista: você e eu, isto e aquilo, bom e mau. Na realidade, tais discriminações são, elas próprias, a consciência da existência universal. "Você" significa estar consciente do universo na forma de você, e "eu" significa estar consciente do universo na forma de eu. Você e eu somos uma parte do vaivém. É necessário este tipo de compreensão; porém, nem sequer deveria chamar-se compreensão já que é, isto sim, a verdadeira experiência da vida através da prática do Zen.

Shunryu Suzuki em "Mente zen, mente de principiante". 

O instante em que vivemos...

   Frequentemente, nossa mente é levada por uma corrente de pensamentos nos quais se misturam reminescências e projeções do futuro. Ficamos distraídos, dispersos, confusos e, por isso, desconectados da realidade imediata e mais próxima de nós. Percebemos com dificuldade o que se passa no instante em que vivemos: o mundo que nos cerca, nossas sensações, a maneira pela qual nossos pensamentos se encadeiam e, sobretudo, a consciência onipresente que nossas cogitações obscurecem. Nossos automatismos de pensamento estão no extremo oposto da consciência plena. Esta consiste em estar perfeitamente atento a tudo que surge em si mesmo e em torno de si, a cada instante, a tudo que vemos, ouvimos e pensamos. A isso se acrescenta uma compreensão da natureza a partir do que nós percebemos, livre das deformações que nossas atrações e rejeições provocam. A consciência plena possui igualmente um componente ético que permite discernir se é ou não benéfico manter esse ou aquele estado de espírito e dar prosseguimento ao que estamos fazendo no momento. 

Matthieu Ricard em "A arte de meditar".