Archive for Junho 2009

Quarto treinamento – Escuta Profunda e Fala Amável


"Consciente do sofrimento causado por palavras descuidadas e pela incapacidade de ouvir os outros, eu me comprometo a cultivar a fala amável e a escuta profunda para levar alegria e felicidade aos outros e aliviá-los em seu sofrimento. Estou determinado a falar a verdade, com palavras que inspirem autoconfiança, alegria e esperança. Não divulgarei notícias que não tenham fundamento seguro nem criticarei ou condenarei aquilo de que não tenho certeza. Evitarei pronunciar palavras que possam causar divisão ou discórdia, que possam desagregar a família ou a comunidade. Estou determinado a fazer todos os esforços possíveis para reconciliar e resolver todos os conflitos, por menores que sejam."

Nunca na história da humanidade tivemos tantos meios de comunicação - televisão, telecomunicações, telefones, aparelhos de fax, rádios sem fio, hot lines e red lines - mas ainda permanecemos como ilhas. Há tão pouca comunicação entre os membros de uma família, entre os indivíduos na sociedade e entre as nações. Sofremos de tantas guerras e conflitos. Certamente não cultivamos a arte da escuta e da fala. Não sabemos como escutar um ao outro. Temos pouca capacidade de manter uma conversa inteligente ou significativa. A porta universal da comunicação deve ser aberta novamente. Quando não podemos nos comunicar, ficamos doentes e, à medida que nossa doença aumenta, sofremos, e nosso sofrimento contagia outras pessoas. Contratamos os serviços de psicoterapeutas para escutar nosso sofrimento, mas, se eles não praticarem a porta universal, não serão bem sucedidos. Os psicoterapeutas são seres humanos sujeitos ao sofrimento como todos nós. Podem ter problemas com seu cônjuge, filhos, amigos e com a sociedade. Eles também têm bloqueios internos. Talvez tenham muito sofrimento que não pode ser partilhado nem mesmo com a pessoa mais amada de sua vida. Como podem ficar sentados, ouvir e compreender o nosso sofrimento? Os psicoterapeutas têm de praticar a porta universal, o quarto treinamento para a mente alerta - escutar com atenção e falar com muito cuidado.

Thich Nhat Hanh em “Os cinco treinamentos para a mente alerta”

Quinto treinamento para a mente alerta - começando de trás para frente


"Consciente do sofrimento causado pelo consumo irresponsável, eu me comprometo a cultivar a boa saúde, tanto física quanto mental, para mim, minha família e minha sociedade, praticando a alimentação, a ingestão de líquidos e o consumo com plena consciência. Somente ingerirei itens que preservem a paz, o bem estar e a alegria no meu corpo, na minha consciência e no corpo coletivo e na consciência da minha família e da minha sociedade. Estou determinado a não usar álcool, ou qualquer tóxico ou consumir alimentos ou outros itens que contenham toxinas, como certos programas de TV, revistas, livros, filmes e conversas. Estou consciente de que prejudicar meu corpo ou minha consciência com esses venenos é trair meus ancestrais, meus pais, minha sociedade e as gerações futuras. Trabalharei para transformar a violência, o medo, a ira e a confusão que existem dentro de mim e na sociedade, mediante uma dieta para mim mesmo e para a sociedade. Entendo que uma dieta apropriada seja crucial para autotransformação e para a transformação da sociedade."
Na vida moderna, as pessoas pensam que seus corpos pertencem a elas mesmas e que podem fazer o que quiserem com ele. "Temos o direito de viver a nossa própria vida". Quando você faz tal declaração, a lei apoia você. Esta é uma das manifestações de individualismo. Porém, de acordo com o ensinamento da vacuidade, seu corpo não é seu. Seu corpo pertence aos seus ancestrais, a seus pais e as gerações futuras. Ele também pertence à sociedade e a todos os outros seres vivos. Todos eles se uniram para concretizar a presença deste corpo - as árvores, as nuvens, tudo. Manter seu corpo saudável é expressar gratidão a todo o cosmos e a todos os seus ancestrais, e é também não trair as gerações futuras. Praticamos este treinamento para a mente alerta para o cosmos inteiro, para a sociedade inteira, todos podem beneficiar-se disso - não apenas todos na sociedade de homens e mulheres, mas todos na sociedade de animais, plantas e minerais. Isto é o treinamento alerta do bodhisttva. Quando praticamos os cinco treinamentos para a mente alerta já estamos no caminho de um bodhisattva.
Thich Nhat Hanh em "Os cinco treinamentos para a mente alerta".

Prisioneiro de sua própria ilusão


"Imensa compaixão se atira espontaneamente na direção de todos os seres sencientes que sofrem como prisioneiros de suas ilusões"
- Kalu Rinpoche, Luminous Mind: The Way of Buddha
Imagine passar a sua vida inteira em um pequeno quarto com apenas uma janela fechada e tão suja que mal deixa passar a luz. Você provavelmente acharia que o mundo é um lugar bastante obscuro e sombrio, repleto de criaturas de formas estranhas que lançam sombras aterrorizantes no vidro sujo quando passam pelo seu quarto. Mas imagine que um dia você derrame um pouco de água na janela, ou um pouco de chuva escorra pelo vidro depois de uma tempestade e use um trapo ou a manga de sua camisa para enxugar a água. Ao fazer isto, parte da sujeira acumulada no vidro é limpa. Subitamente, um pequeno feixe de luz atravessa o vidro. Curioso, você pode limpar um pouco mais e, à medida que mais sujeira é limpa, mais luz entra no quarto. "Talvez", você pensa, "o mundo não seja tão escuro e assustador. Talvez seja o vidro".

Você vai até a pia e pega mais água "talvez mais alguns trapos" e esfrega até que toda a superfície da janela fique livre de sujeira. A luz entra em todo o seu esplendor e você percebe, talvez pela primeira vez, que todas aquelas sombras de formas estranhas que costumavam assustá-lo a cada vez que passavam eram pessoas - exatamente como você! E, das profundezas de sua consciência, surja o desejo instintivo de formar um vínculo social - sair para a rua e estar com estas pessoas.

Na verdade, você não mudou absolutamente nada. O mundo, a luz, e as pessoas sempre estiveram lá. Você só não conseguia vê-los porque sua visão estava obscurecida. Mas agora você vê tudo, e que enorme diferença isto faz.

É isso que, na tradição budista, chamamos de despertar compaixão, o despertar de uma capacidade inata de identificar-se com e compreender a experiência dos outros.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A Alegria de Viver".

Liberação

"É importante perceber que o ponto principal de qualquer prática espiritual é sair da burocracia do ego. Isso significa sair do desejo constante do ego por uma versão mais alta, mais espiritual e mais transcendental do conhecimento, da virtude, do julgamento, do conforto ou do que quer que seja que aquele determinado ego esteja buscando. É preciso sair do materialismo espiritual."
Chogyam Trungpa Rinpoche (1939~1987).