Archive for Fevereiro 2011

Encontrando Deus...


Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora

Alberto Caeiro em "O guardador de rebanhos".

Por que nascemos humanos?

   As pessoas às vezes se perguntam, "Por que eu nasci? Qual é o propósito desta vida humana? Tenho a sensação de que há um grande motivo para eu estar aqui, mas não sei qual é." Alguns pensam que seu propósito é tornar-se um excelente músico ou escrever livros excepcionais. No entanto, qualquer música tocada, qualquer escrito é impermanente.
   Não compreendemos que a nossa mente é um sonhador, e as nossas experiências na vida o sonho que ele criou. Pelo fato de não termos idéia alguma de que estamos sonhando, tomamos a vida muito a sério, e freqüentemente nos sentimos impotentes quando as coisas não saem como desejamos. Através da prática espiritual, podemos, pelo menos, criar sonhos felizes. Em algum momento, poderemos de fato acordar.
   Acordar, revelar a essência da nossa existência, é a meta maior da nossa vida, que a tudo se sobrepõe. Mas o que é essa essência? Não pode ser o nosso corpo, já que tudo o que sobra quando a mente deixa o corpo é um cadáver. Nem pode ser a faculdade da fala, já que é simplesmente uma função do corpo. E não é, tampouco, as oscilações superficiais das emoções, o contínuo sobe e desce de esperanças e medos, de gostos e aversões, nem a atividade da mente que, como uma pulga saltitante ou uma pipoca, está sempre se movimentando e mudando. Para encontrarmos a essência, temos que compreender a verdadeira natureza do nosso corpo, fala e mente, além da experiência de realidade que temos, que é como um sonho. A capacidade de fazer isso é encontrada apenas no nascimento humano precioso.

Chagdud Tulku Rinpoche em "Os portões da prática budista."

Caminho circular.


O caminho perfeito não possui dificuldades
Mas não faz distinções ou preferências;
Apenas quando não houver apego nem aversão
É que tudo surgirá de modo claro e aberto.

Porém, com a menor diferenciação,
As coisas se afastam mais do que o céu e a terra;
Se quiser o caminho bem aqui, diante de seus olhos,
Não concorde ou discorde dele.

A competição entre a aceitação e a rejeição
É uma doença para a mente;
Sem compreender o significado profundo,
Esforça-se em vão para aliviar os pensamentos.

O caminho é circular, é um vazio imenso
Em que nada falta e nada sobra;
É só por causa do escolher e do rejeitar
Que o caminho deixa de ser assim.

Não procure condicionamentos externos
Nem permaneça no vazio interno;
Quando a mente repousa na unidade,
O dualismo desaparece por si mesmo.

Se acalmar a mente detendo seu movimento,
Essa quietude fará movê-la ainda mais;
Enquanto estiver nesse dualismo,
Como poderá conhecer a unidade?

Onde a unidade não é total,
Os dois extremos perdem seu mérito;
Negar a realidade é o mesmo que afirmá-la,
Perseguir o vazio é afastar-se ainda mais dele.

Shin Jin Mei.

Onde está o arco-íris?

   Imaginemos uma rosa recentemente desabrochada cuja beleza admiramos. Como é bela! Imaginemos agora que somos um inseto que come um pedaço da pétala. Como é bom! Visualizemo-nos na pele de um tigre diante do qual é colocada essa rosa. Para ele, a flor ou um feixe de feno não têm diferença. Transformemo-nos no coração dessa rosa e imaginemos ser um átomo. Existimos somente sob a forma de trajetórias energéticas num mundo caleidoscópico, no seio de um turbilhão de partículas que atravessam um espaço quase inteiramente vazio. Onde está a rosa? Onde estão a sua cor, forma, textura, perfume, gosto e beleza? Quanto às partículas, se olharmos de mais perto, são elas objetos sólidos? Certamente não, dizem os físicos. São "acontecimentos" que surgem do vazio quântico, das "ondas de probabilidades" e, enfim, da energia. A energia seria uma entidade? Não seria ela um potencial de manifestação que não é nem não existente nem verdadeiramente existente? O que sobrou da rosa?
   A "vacuidade" de alguma coisa não é a inexistência dessa coisa, mas a sua verdadeira natureza. A vacuidade do arco-íris não é a sua ausência, é o fato de que, quando ele está brilhando com todas as suas cores cambiantes, ele é inteiramente desprovido de existência própria, autônoma e permanente. Basta que o sol, que brilha atrás de nós, seja coberto por um instante, ou que a cortina de chuva pare de cair, para que o arco-íris se esvaneça sem deixar nenhum traço.      

Matthieu Ricard em "A arte de meditar".

Vale a pena cultivar o ódio?

   Quando cedemos à raiva, não estamos necessariamente fazendo mal a nosso inimigo, mas com certeza o fazemos à nós mesmos. Perdemos a nossa paz interior, não fazemos mais nada direito, a nossa digestão fica ruim, não podemos mais dormir, expulsamos aqueles que vêm nos visitar, lançamos olhares furiosos àquele que ousar estar no nosso caminho. Se temos um animal de estimação, esquecemos de lhe dar comida. Tornamos a vida impossível para aqueles que moram conosco e mantemos a distância até os amigos mais queridos. E como um número cada vez menor de pessoas simpatizam conosco, sentimo-nos mais e mais solitários. Para que tudo isso? Mesmo se permitirmos que a nossa fúria se manifeste totalmente, nunca eliminaremos nossos inimigos. Você conhece alguém que tenha conseguido alguma vez fazer isso? Enquanto abrigarmos dentro de nós esse inimigo interno que é a raiva ou ódio, por mais bem-sucedidos que sejamos hoje na destruição dos nossos inimigos externos, amanhã surgirão outros.

S.S. Dalai Lama.

A diferença entre concentração e plena consciência.

    A concentração e a plena consciência são elementos completamente distintos na prática meditativa. Ambos tem um papel na meditação, e a relação entre eles é definida e delicada. A concentração é o direcionamento da mente para um único ponto. Ela consiste em forçar a mente a permanecer estática em um único ponto. Por favor, observe a palavra forçar. A concentração é um tipo de atividade que envolve a utilização da força. Ela pode ser desenvolvida pela força, pela vontade incessante e pura. E, uma vez desenvolvida, ela mantém esse sabor forçado. A atenção plena, por outro lado, é uma função delicada que resulta no refinamento da sensibilidade. As duas são parceiras no trabalho da meditação. A plena consciência é a parte sensitiva. Ela observa as coisas. A concentração fornece poder. Ela mantém a atenção fixada para um determinado objeto. Idealmente, a plena consciência deve estar nessa relação. A plena consciência capta o objeto da atenção e observa quando a atenção se dissipou. A concentração faz o trabalho de manter a atenção fixa no objeto da plena conscência. Se um desses parceiros é fraco, a meditação se desvia.  

Gentileza, como um bebê no berço da humanidade.

   Como nos tornamos os beneficiários da gentileza dos outros? Geshe Rabten me disse que, após meditar sobre a gentileza dos outros em retiro, dia após dia, semana após semana, ele se sentiu como um bebê no berço da humanidade - cada experiência que teve surgiu em dependência da gentileza dos outros. Considere o seu café desta manhã. Você cuidou do trigo, das laranjas ou do leite da vaca? Cada porção mínima a nossa volta é em razão da gentileza dos outros. Não conseguiríamos atravessar o dia sem o apoio esmagador dos seres sencientes à nossa volta. Portanto, perceber a gentileza dos outros, de que maneira eles têm nos auxiliado, é mais do que uma atitude beneficiente, é um passo em direção ao ideal do bodhisattva por ser uma apreciação da natureza dependentemente relacionada com nossa própria existência.

B. Allan Wallace em "Budismo com atitude".

O hábito de fugir.

   Todos nós temos tendência a evitar o momento presente. É como se esse hábito fizesse parte do nosso DNA. No nível mais básico, pensamos o tempo inteiro, e isso desvia a nossa atenção. Em seus ensinamentos sobre a fantasia e realidade, Chögyam Trungpa dizia que estar totalmente presente, em contato com o imediatismo de nossa experiência, significa realidade. Ele descrevia a fantasia como estar perdido em pensamentos. A maioria das pessoas que dirige na autoestrada a 137 quilômetros por hora está distraída. Aparentemente, temos uma espécie de piloto automático que nos mantém na estrada, ou que nos permite fazer inúmeras tarefas ao mesmo tempo, ou nos alimentar, todas as coisas que fazemos sem pensar. Esse padrão de distração, de não estar presente em toda plenitude, de não contatar o imediatismo de nossa experiência é considerado normal. 
   Segundo o budismo, temos fortalecido esse hábito de abstração vida após vida. Mas se não acreditar em ressurreição, apenas esta vida é suficiente para ver como se abstrai. Desde criança, fortalecemos o hábito de fugir, escolhendo a fantasia em vez da realidade. Infelizmente, encontramos muito conforto em devanear, em nos voltarmos para nossos pensamentos, preocupações e planos. Isso nos dá uma sensação agradável de falsa segurança. 
   Certa vez, ouvi um ensinamento muito útil de Dzigar Kungtrül, que aprofunda a discussão sobre esse padrão de fuga da realidade. É um ensinamento sobre shenpa. Em geral, a palavra tibetana shenpa traduz-se por apego, porém essa tradução sempre me pareceu muito abstrata, porque não revela a importância de shenpa e seu efeito em nós. Uma tradução alternativa poderia ser "fisgado", no sentido de ser fisgado, ou aprisionado. Todas as pessoas gostam de ouvir ensinamentos de como libertaram-se de situações desagradáveis, porque esse sentimento dirige-se a uma fonte comum de dor. Em termos da metáfora da hera venenosa - a coceira e a ânsia de se coçar -, a shenpa representa também nossa ansiedade e a vontade de se coçar. Ela nos impele a fumar um cigarro, a comer demais, a beber mais um drinque, a dizer alguma coisa maldosa ou a contar uma mentira. É assim que a shenpa surge em nossas experiências cotidianas.        

Pema Chöndrön em "O salto. Um novo caminho para enfrentar as dificuldades inevitáveis".