Archive for Outubro 2009

Criador e criatura...


   Qual a relação entre o criador e a criatura? Um tem o poder de criar e a outra, a qualidade de ser criada. Se estiverem unidos entre si, podemos falar deles como sujeito e objeto. Mas se não estiverem unidos entre si, como chamá-los de sujeito e objeto? O sujeito que cria é Deus; o objeto criado é o universo no qual vivemos. Entre sujeito e objeto há uma vinculação estreita, assim como há estreita vinculação entre esquerda e direita, entre dia e noite, entre saciedade e fome; bem como, segundo a lei da refração, há um vínculo muito estreito entre o percebedor e o percebido. Quando o ângulo da incidência muda, mudará imediatamente o ângulo da refração. O que chamamos de vontade de Deus está ligado à nossa própria vontade.   

Thich Nhat Hanh em "A energia da oração".

O início da liberdade


   A liberdade começa quando percebemos que não somos a entidade dominadora, "o pensador". No momento em que começamos a observar o pensador, ativamos um nível mais alto de consciência. Começamos a perceber, então, que existe uma vasta área de inteligência além do pensamento, e que este é apenas um aspecto diminuto da inteligência. Percebemos também que todas as coisas importantes como a beleza, o amor, a criatividade, a alegria e a paz interior surgem de um ponto além da mente.
É quando começamos a acordar.

Eckhart Tolle em "O poder do agora".  

Atenção ao fazer


   Pergunte a si mesmo: existem alegria, naturalidade e leveza no que estou fazendo? Se não existirem, é porque o tempo está encobrindo o momento presente e você está percebendo a vida como um encargo ou uma luta.
   A ausência de alegria, naturalidade ou leveza no que estamos fazendo não significa, necessariamente, que precisemos mudar o que estamos fazendo. Talvez baste mudarmos o como. "Como" é sempre mais importante do que "o quê". Verifique se você pode dar muito mais atenção ao fazer do que ao resultado desejado através do fazer. Dê a sua inteira atenção para o que quer que o momento apresente. Isso implica que você aceitou totalmente o que é, porque não se pode dar atenção completa a alguma coisa e, ao mesmo tempo, resistir a ela.

Eckhart Tolle em "O poder do agora".

A estrada para a verdadeira felicidade.


   Desenvolver o bodhichitta envolve uma mudança fundamental de atitude. O ponto principal está em, aos poucos, mudar o objeto da meditação, de nós para os outros. A mente acostumou-se tanto a olhar para dentro de si que é preciso uma transformação completa a fim de fazê-la virar-se para fora. De fato, toda nossa existência esteve voltada para dentro, de modo que é necessária alguma massagem para virá-la para o outro lado. Essa mudança é causada pela percepção de que o costume de sempre pensarmos em nós nos mantém infelizes. A estrada para a verdadeira felicidade começa em doar-nos aos outros.

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada". 

Meditação sobre a amizade universal


Que eu possa ser feliz,
Que eu possa ser livre do sofrimento,
Que eu possa ser livre da inimizade,
Que eu possa ser livre da maldade,
Que eu possa ser livre das dificuldades,
Que eu possa preservar minha felicidade.

Que todos os seres sejam felizes,
Que todos os seres sejam livres da inimizade,
Que todos os seres sejam livres da maldade,
Que todos os seres sejam livres das dificuldades,
Que todos os seres preservem sua felicidade,
Que todos os seres não se separem
da boa fortuna que já conquistaram.
Que todos seres sejam
totalmente livres da insatisfação.

Todos os seres são senhores de suas ações,
Herdeiros de sua ações, nascidos de suas ações,
Unidos às suas ações,
Protegidos por suas ações.
O que quer que façam, para o bem ou para o mal,
Disto eles serão herdeiros. 

Dedicando o mérito


   Dedicar o mérito ao final de qualquer prática é uma aspiração de que qualquer força psicológica ou emocional que você obteve por meio da prática seja transmitida aos outros - o que não é apenas uma maravilhosa e breve prática de compaixão, mas também uma forma extremamente sutil de dissolver a distinção entre "eu" e "outros". A dedicação do mérito leva cerca de trinta segundos, não importa se você a recitar em tibetano ou em sua língua nativa. Uma tradução aproximada seria:
  "Por este poder, todos os seres,
   Tendo acumulado força e sabedoria,
   Atingem os dois estados claros
   Que surgem da força e da sabedoria." 

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

A importância da intenção de meditar...


   Como já mencionei, independentemente de você vivenciar absoluta felicidade, clareza, desorientação ou absolutamente nada, a intenção de meditar é mais importante do que o que acontece quando você medita. Como a vigilância já está presente, o simples ato de fazer um esforço para se conectar com ela desenvolve a sua consciência dela. Se você continuar praticando, aos poucos pode sentir alguma coisa, um senso de tranquilidade ou paz de espírito que pode ser um pouco diferente de seu estado de espírito normal. Quando você começa a vivenciar isso, intuitivamente entende a diferença entre a mente distraída e a mente não-distraída da meditação. 

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

O esquecimento das instruções


   A razão pela qual praticamos todos os dias é a facilidade com que nos desviamos da visão; tudo o mais em nossa vida nos puxa para diferentes direções. Podemos encarar o esquecimento das instruções como parte integrante da prática. Como um antídoto, a atenção plena significa aprendê-las novamente. Necessitamos lembrar o tempo todo o que é a meditação, por que e como a praticamos. Precisamos estudar e contemplar. Se não tivermos uma idéia clara do que estamos fazendo e não a atualizarmos regularmente, a meditação nunca será bem sucedida. Por exemplo, quando relemos um livro importante, nosso entendimento é muitas vezes completamente diferente do que foi da primeira vez. É claro que as palavras não mudaram, mas, dessa vez, nossa compreensão é mais profunda.

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".        

A falha dos outros


   Tendemos a nos permitir o impulso habitual de discutir em grandes detalhes as falhas de outras pessoas. Este aforismo reitera o antigo adágio: "Se não puder falar algo positivo, será melhor não falar nada." Em geral, discutir as falhas de uma pessoa é um modo de soltar a frustração, de mostrar desprezo e afirmar a própria superioridade. Quanto mais paixão alguém tiver sobre as falhas dos outros, mais agitada a mente se torna. A vida é muito curta e muito importante para alguém perder tempo discutindo as falhas dos outros. Este comportamento não traz benefícios, enfraquece o cultivo do bodhichitta e acaba nos prejudicando.

B. Allan Wallace em "Budismo com atitude".

Não seja tolhido pelo mau humor


   Quando uma pessoa sofre um abuso, com frequência não nos importamos, mas quando nós sofremos o abuso, nossa centralização tende a se mostrar e nossa resposta é bem mais inflamada. O treinamento da mente nos encoraja a não retaliar verbalmente ou abrigar um ressentimento quando sofremos um abuso ou somos caluniados, mas sim neutralizar a nossa própria centralidade, a causa verdeira do nosso sofrimento nessas situações. Não temos muito controle quando a raiva surge, mas quando a percebemos, temos uma escolha. Mesmo que todo o restante em nossa prática esteja perfeito, se escolhermos alimentar o ressentimento, o desprezo e a hipocrisia, isso desenrola todo o fio da trama do nosso treinamento da mente. Portanto, não seja tolhido pelo mau humor ou pelo ressentimento. A maneira mais rápida de se libertar da raiva é não se identificar com ela.

B. Allan Wallace em "Budismo com atitude"

Somos tudo o que queríamos ser


   O Sutra do Coração diz que não há nada para ser atingido. Nós não meditamos para atingir a iluminação, porque a iluminação já está em nós, consequentemente não há necessidade de buscá-la. Não precisamos de propósitos nem de metas. Nossa prática não visa obter uma alta posição. Quando praticamos a ausência de objetivo, entendemos que nada nos falta, que já somos tudo o que queríamos ser. Nessa altura, nossa luta desesperada principia a cessar. Fazemos as pazes com o momento presente, e conseguimos observar a luz do sol entrando pela janela e ouvir o barulho da chuva. Não precisamos mais correr atrás de coisas externas. Podemos usufruir este momento. As pessoas discutem como chegar ao nirvana, mas na verdade já estamos lá. A ausência de objetivo e o nirvana são uma coisa só.

Thich Nhat Hanh em "A essência dos ensinamentos de Buda".

Receber, aceitar e transformar..


   A tolerância é a capacidade de receber, aceitar e transformar as coisas. Quando praticamos a tolerância, não precisamos sofrer nem nos resignarmos, mesmo quando precisamos aceitar o sofrimento ou a injustiça.
    O Buda oferece uma linda imagem sobre isso. Se pegarmos um punhado de sal e colocarmos em uma tigela com água, a água ficará salgada demais para beber. Mas a mesma quantidade de sal colocada em um grande rio não afetará a sua água, e as pessoas ainda poderão bebê-la. Devido a sua imensidão o rio tem a capacidade de receber e transformar. O rio não sofre por causa de um punhado de sal. Se seu coração for pequeno, uma palavra ou ação injusta fará você sofrer, mas se o coração for grande, e se tiver compreensão e compaixão, a palavra ou ação injusta não terá o poder de lhe causar sofrimento, porque você terá a capacidade de receber, aceitar e transformar rapidamente. O que conta aqui é a sua  capacidade. Para transformar o sofrimento, o coração precisa ser grande como um oceano. Outra pessoa talvez sofra, mas se um bodhisattva ouvir as mesmas palavras desgradáveis, não sofrerá. Tudo depende da forma de receber, aceitar e transformar. Se você guardar uma dor por muito tempo, é porque ainda não aprendeu a prática da tolerância. 

Thich Nhat Hanh em "A essência dos ensinamentos do Buda".

Apreciando a chuva...


   Enquanto estiver praticando zazen no escuro da madrugada, pode ouvir a chuva caindo no telhado. Mais tarde, uma bruma maravilhosa deslizará por entre as grandes árvores e, mais tarde ainda, quando as pessoas começarem a trabalhar, verão as belas montanhas. Mas algumas pessoas ficarão aborrecidas ao ouvirem a chuva pela manhã, quando ainda deitadas na cama, porque não sabem que mais tarde verão a beleza do sol despontando no leste. Se nossa mente estiver concentrada em nós mesmos, teremos este tipo de preocupação. Mas, se aceitarmos a nós mesmos como a personificação da verdade, ou da natureza de Buda, não teremos preocupações.  Pensaremos, "Agora está chovendo, mas não sabemos o que acontecerá no momento seguinte. Talvez, à hora de sairmos, o dia esteja belo ou tempestuoso. Como não sabemos, apreciemos o som da chuva". Esta é a atitude correta. Se você se vê como uma personificação temporária da verdade, não terá qualquer dificuldade. Você apreciará o que está a sua volta e apreciará a você mesmo como uma parte maravilhosa da grande atividade de Buda, ainda que em meio às dificuldades. Este é o nosso modo de viver.

Shunryu Suzuki em "Mente zen, mente de principiante".

Agora


   Você alguma vez vivenciou, realizou, pensou ou sentiu alguma coisa fora do agora? Acha que conseguirá algum dia? É possível alguma coisa acontecer ou ser fora do agora? A resposta é óbvia, não é mesmo?
   Nada jamais aconteceu no passado, aconteceu no agora.
   Nada jamais irá acontecer no futuro, acontecerá no agora.
   O que consideramos como passado é um traço de memória, armazenado na mente, de um agora anterior. Quando lembramos do passado, reativamos um traço de memória e fazemos isso agora. O futuro é um agora imaginado, uma projeção da mente. Quando o futuro acontece, acontece como sendo o agora. Quando pensamos sobre o futuro, fazemos isso agora. Obviamente o passado e o futuro não têm realidade própria. Do mesmo modo como a lua não tem luz própria e apenas reflete a luz do sol, o passado e o futuro são apenas um reflexo pálido da luz, do poder e da realidade do eterno presente. A realidade deles é emprestada do agora.

Eckhart Tolle em "O poder do agora". 

Apenas pensamentos


     Apesar de nos apegarmos a idéias de que algumas experiências são melhores, mais adequadas ou mais produtivas do que outras, na verdade, não há pensamentos bons ou pensamentos ruins. Existem apenas pensamentos. Assim que um grupo de neurônios fofoqueiros começa a produzir sinais que traduzimos com pensamentos ou sentimentos, outro grupo começa a comentar: "Ah, aquele foi um pensamento vingativo. Que pessoa ruim você é" ou "Você está com tanto medo, você deve mesmo ser incompetente". A meditação é mais um processo de consciência sem julgamentos. Quando meditamos, adotamos a perspectiva objetiva de um cientista em relação à nossa própria experiência subjetiva. Isso pode não ser fácil no início. A maioria de nós é treinada na crença de que, se pensar que algo é bom, isso é bom e, se pensar que algo é ruim, isso é ruim. Mas, enquanto praticamos observar nossos pensamentos irem e virem, essas distinções rigorosas começam a se desfazer. O senso comum nos diz que tantos eventos mentais surgindo e desaparecendo no espaço de um minuto não podem ser todos verdadeiros.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".
  

Deixe o rio fluir


É impossível impedir que a sua mente gere pensamentos, sentimentos e sensações. Pensar é a função natural da mente, da mesma maneira que a função natural do sol é produzir luz e calor e de uma tempestade é produzir raios e chuva. Quando comecei a aprender sobre meditação, ensinaram-me que tentar suprimir o funcionamento natural da minha mente era, na melhor das hipóteses, uma solução temporária. Na pior das hipóteses, se deliberadamente tentasse mudar minha mente, na verdade eu só estaria reforçando minha própria tendência de me fixar em pensamentos e sentimentos como se fossem inerentemente reais.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".     

Isso também passará


Segundo uma antiga história sufista, havia um rei num terrritório do Oriente Médio que estava sempre dividido entre a felicidade e o desalento. A menor coisa era capaz de lhe causar grande aborrecimento ou uma reação intensa, e assim sua felicidade se convertia rapidamente em frustação e desespero. Por fim, houve um momento em que ele se cansou de si mesmo e da vida e começou a buscar uma saída. Mandou chamar um sábio que vivia no reino e que tinha a fama de ser iluminado. Quando o sábio chegou, o rei lhe disse:
- Quero ser como você. Pode me dar alguma coisa que me traga equilíbrio, serenidade e sabedoria à minha vida? Pago o preço que você pedir por isso.
O sábio respondeu:
- Talvez eu possa ajudá-lo. Mas o preço é tão alto que nem todo o seu reino seria suficiente para pagá-lo. Então, vou lhe dar isso como um presente, desde que você honre o seu compromisso.
O rei garantiu que sim e o sábio se foi.
Algumas semanas depois, ele retornou e entregou ao rei uma caixa decorada e com entalhes de jade. O rei a abriu e encontrou ali um simples anel de ouro. Havia algumas letras gravadas nele. A inscrição dizia: "Isso também passará."
- O que significa isto? - perguntou o rei.
O sábio respondeu:
- Use sempre este anel. Seja o que for que aconteça, antes de considerar este evento bom ou mau, toque o anel e leia a inscrição. Assim, você viverá sempre em paz.      

Eckhart Tolle em "Um novo mundo - o despertar de uma nova consciência".          

Ser e fazer


     Quando vê aquilo que está fazendo ou o lugar em que está como o propósito principal da sua vida, você nega o tempo. Isso lhe dá um poder imenso. A negação do tempo naquilo que está sendo realizado também fornece a ligação entre seus propósitos interior e exterior, entre ser e fazer. Sempre que nega o tempo, você nega o ego. Não importa a atividade que esteja executando, você a desenvolverá extradiornariamente bem porque o fazer em si passa a ser o ponto focal da sua atenção. Sua ação se torna então um canal pelo qual a consciência entra no mundo. Isso significa que existe qualidade no que você faz, mesmo no ato mais simples, como virar as páginas do catálogo telefônico ou atravessar a sala. O propósito principal de virar as páginas é virar as páginas; o propósito secundário é encontrar um número de telefone. O propósito principal de atravessar a sala é atravessar a sala; o  propósito secundário é apanhar um livro na outra extremidade - e, no instante em que você o pega, isso se torna o seu propósito principal.
     Você deve estar lembrado do paradoxo do tempo que mencionei: qualquer coisa que façamos requer tempo; ainda é assim, é sempre agora. Então, enquanto seu propósito interior é negar o tempo, seu propósito exterior envolve necessariamente o futuro e, assim, este último não poderia existir sem o tempo. Mas ele é sempre secundário. Toda vez que você fica ansioso ou estressado, isso mostra que o propósito exterior assumiu o controle e que você perdeu o propósito interior de vista. Terá se esquecido de que seu estado de consciência é primário, e todo o resto, secundário.

Eckhart Tolle em "Um novo mundo - o despertar de uma nova consciência".