Archive for Novembro 2009

O próximo Buda...


   Não podemos ter medo de amar. A vida sem amor é impossível. Temos que aprender a arte de amar o outros e a nós mesmos apropriadamente. Precisamos amar a maneira como andamos, nos sentamos e comemos. O Buda proporciona luz para iluminarmos a natureza do nosso amor. Ele nos oferece meios concretos de vivermos diariamente, de modo que o amor se torne uma coisa deliciosa. O mundo necessita muito de amor. Temos que contribuir para que o próximo Buda, Maitreya, o Buda do amor, possa existir. Estou cada vez mais convencido de que o próximo Buda talvez não seja simplesmente uma pessoa, mas uma comunidade de amor. Vamos apoiar uns aos outros para construir uma comunidade em que o amor seja algo tangível. É possível que essa seja a coisa mais importante que podemos fazer pela sobrevivência da Terra. Possuímos tudo, exceto amor. Devemos renovar nosso modo de amar, aprendendo a amar de verdade. O bem-estar do mundo depende de nós, do modo como vivemos o dia-a-dia e da maneira como cuidamos de mundo e amamos.

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".

Nosso falso conselheiro pessoal


   Da perspectiva budista, a centralização em si tem dominado nosas mentes desde tempos imemoriais, em todas as nossas vidas anteriores. Ela promete cuidar de nós como um servo, assim como nós tomamos conta dela. Ela se apresenta como o nosso aliado indispensável número 1 e nos aconselha que se não cooperarmos, perderemos tudo de bom, tudo. Nunca chegaremos a lugar algum porque, se não cuidarmos de nós, em primeiro lugar, outras pessoas tomarão tudo que queremos.
   A centralização em si apresenta como o nosso aliado leal na busca da felicidade. A tradição budista nos diz o oposto - buscar a felicidade com uma atitude centrada é na realidade a maior fonte de sofrimento. A centralização em si é como um espião que se infiltrou na sociedade da nossa mente, nosso pior inimigo, que posa de conselheiro pessoal confiável. Shantideva diz que outros inimigos chegam e vão embora, mas o nosso maior inimigo, o inimigo verdadeiro, destrói nosso bem-estar a cada dia. O seu nome é centralização em si.

B. Alan Wallace em "Budismo com atitude".

A experiência do lago


   Durante a experiência do "rio", sua mente ainda pode ter seus altos e baixos. Quando atinge o próximo estágio, que meus professores chamavam de experiência do "lago", sua mente começa a ficar muito suave, ampla e aberta, como um lago sem ondas. Você se perceberá genuinamente feliz, sem altos e baixos. Você ficará confiante e estável, e vivenciará um estado mais ou menos contínuo de consciência meditativa, mesmo enquanto dorme. Você ainda pode passar por problemas em sua vida -pensamentos negativos, emoções fortes e assim por diante-, mas, em vez de serem obstáculos, eles se transformam em oportunidades de aprofundar a consciência meditativa, como um atleta usa o deafio de correr mais um quilômetro para transpor uma "parede" de resistência e obter ainda mais força e habilidade.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".     

A experiência do rio


   Aos poucos, à medida que continua a praticar, você inevitavelmente se perceberá capaz de distinguir com clareza os movimentos dos pensamentos, emoções e sensações que passam pela sua mente. Nesse ponto, você começou a passar da experiência da "cachoeira" para o que os meus professores chamavam de experiência do "rio", em que as coisas ainda estão se movendo, mas de forma mais lenta e gentil. Um dos primeiros sinais de que você entrou na fase do rio da experiência meditativa é que você se verá entrando em um estado de consciência meditativa sem muito esforço, unindo sua consciência a qualquer coisa que esteja ocorrendo dentro de si mesmo ou ao seu redor. E, quando se sentar para a prática formal, você terá experiências mais claras de absoluta felicidade, clareza e não-conceitualização.
   (...) Quando "entra no rio", você percebe sua mente ficando mais tranquila. Você perceberá que não está levando seus movimentos tão à sério e, em consequência, se perceberá espontaneamente vivenciando um senso maior de confiança e abertura, que não será abalado por quem você encontra, o que você vivencia ou ainde você vai. Apesar de tais experiências poderem vir e ir, você começará a sentir a beleza do mundo ao seu redor.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".   

A experiência da cachoeira


   Quando comecei a meditar, fiquei horrorizado ao me ver vivenciando mais pensamentos, sentimentos e sensações do que vivenciava antes de começar a praticar. Parecia que minha mente estava ficando mais agitada, em vez de mais tranquila. "Não se preocupe", meus professores me diziam. "Sua mente não está piorando. O que está acontecendo é que você está ficando mais consciente da atividade que ocorre o tempo todo sem que você repare".
   Eles explicaram essa experiência por meio da analogia de uma cachoeira subitamente intensificada por um degelo. À medida que a neve que descongela e flui das montanhas, eles me disseram, todo o tipo de coisas se agita. Pode haver centenas de pedras, pedregulhos e outros elementos sendo levados pela água, mas é impossível ver tudo porque a água flui tão rapidamente, agitando todo o tipo de sujeira, que isso a obscurece; e é muito fácil distrair-se com todo esse entulho mental e emocional.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

O verdadeiro teste da prática do darma


   O verdadeiro teste para o praticante do darma procede do seguinte ângulo: se as emoções pertubadoras forem reduzidas, a prática terá sido eficaz. Esse é o principal critério na determinação do verdadeiro praticante, por mais santa que possa ser sua aparência externa. O objetivo principal da meditação é diminuir as aflições ilusórias da mente e finalmente extirpá-las pela raiz. Ao aprender e praticar os vastos e profundos aspectos do ensinamento, o praticante que medita sobre a ausência-do-eu e adquire uma prolongada familiaridade com esse estado acaba por alcançar um entendimento da realidade.

S.S. Dalai Lama em "Os estágios da meditação". 

Um copo de limonada gelado


   A inspiração é um anseio imediato, uma súbita centelha que podemos utilizar para recarregar nossas baterias. É como imaginar um copo de limonada gelada em um dia quente de verão. O pensamento do gelo, do gosto marcante, do vidro gelado, mesmo da rodela de limão na borda, nos impulsiona para fora de nossa cadeira suada no jardim até a cozinha, em busca de refresco.
   Da mesma maneira, podemos usar nosso anseio pelo frescor da mente tranquilla para nos trazer de volta para a almofada, para nos trazer de volta à técnica. Recordamos o lugar tranquilo e fresco que é subjacente ao calor opressivo de nosso aturdimento e sofrimento. Desejamos ardentemente estar lá. Confiamos nos aspectos refrescantes e alegres da meditação porque ouvimos falar a seu respeito, porque nós os estudamos e os experimentamos. Esse é o apoio de que necessitamos para nos movermos para além do desânimo e da procrastinação.

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".

A oração eficaz


   A oração eficaz se constitui de muitos elementos, mas há dois que parecem mais importantes. O primeiro é estabelecer um relacionamento entre nós e aquele a quem nos dirigimos na oração. É o equivalente a conectar o fio elétrico, quando queremos falar ao telefone. Mais acima, coloquei a pergunta: a quem rezamos? E respondi que aquele que reza e aquele a quem se reza são duas realidades que não podem ser separadas uma da outra. Isto é fundamental no budismo, e estou quase certo de que em toda religião há pessoas com longa prática e que têm este modo de pensar. Podem entender que Deus está em nosso coração.
   O segundo elemento de que precisamos na oração é a energia. Conectado o fio telefônico, precisamos mandar agora uma corrente elétrica através dele. Na oração, a corrente elétrica é o amor, a mente alerta e a reta concentração. A mente alerta é a presença real de nosso corpo e de nossa mente. Nosso corpo e nossa mente são direcionados para um ponto: o momento atual. Se isto faltar, somos incapazes de rezar, não importa o tamanho da fé que temos. Se você não está presente, quem é que está rezando?

Thich Nhat Hanh em "A energia da oração".   

Um desejo em comum


   O outro grande benefício de desenvolver a compaixão é que, por meio da compreensão das necessidades, medos e desejos dos outros, você desenvolve uma capacidade mais profunda de compreender a si mesmo - o que você deseja, o que você deseja evitar e a verdade sobre sua própria natureza. E isso, por sua vez, serve para dissolver qualquer senso de solidão ou baixa auto-estima que você possa estar sentindo. À medida que começa a reconhecer que todos desejam a felicidade e morrem de medo da infelicidade, você começa a perceber que não está sozinho em seus medos, necessidades e desejos. E, ao perceber isso, perde seu receio dos outros - cada pessoa é um amigo em potencial, um irmão ou irmã em potencial -, porque você compartilha os mesmos medos e as mesmas metas. E, com essa compreensão, fica muito mais fácil comunicar-se com os outros de coração a coração.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".  

Ter ou não ter problemas...


   Se a sua aspiração mais profunda na vida é não ter problemas, a prática do dharma não realizará esta aspiração. Se a sua aspiração mais profunda é a maturação espiritual, então toda a adversidade possível na vida, sem exceção, poderá fazer surgir o insight mais profundo, a compaixão mais profunda. Este aforismo se refere a primeira nobre verdade, a realidade do sofrimento. A natureza essencial da nossa conscientização é pura, mas, em termos de hábitos, nossas mentes são iludidas. Ao reconhecer que os seres sencientes ficam perturbados pelas aflições mentais, não nos surpreendemos quando as dificuldades se manifestam e nos oferecem a oportunidade de responder de maneira significativa.

B. Alan Wallace em "Budismo com atitude".

"Ops"


   No começo, a atenção aos pensamentos sempre se dispersa. Tudo bem se isso acontecer. Se você descobrir que a sua mente está dispersando, permita-se conscientizar-se de que sua mente está divagando. Até as divagações podem se tornar um suporte para a meditação se você permitir que elas sejam gentilmente permeadas por sua consciência.
   E, quando subitamente lembrar: "Ops, eu deveria estar observando meus pensamentos, deveria estar me concentrando na forma, deveria estar ouvindo os sons", simplesmente conduza sua atenção de volta ao que deveria estar fazendo. O grande segredo desses momentos de "ops" é que eles são, na verdade, experiências em frações de segundos de sua natureza fundamental.
   Seria bom ater-se a cada "ops" que você vivenciar, Mas você não pode. Se tentar, eles se cristalizam em conceitos - idéias sobre o que o "ops" deveria significar. A boa notícia é que, quanto mais você praticar, mais "ops" poderá vivenciar. E, aos poucos, esses "ops" começam a se acumular, até que um dia o "ops" se torna um estado de espírito natural, uma liberação dos padrões habituais da fofoca neuronal que permite que você observe qualquer pensamento, qualquer sentimento e qualquer situação com total liberdade e abertura.
O "ops" é uma coisa maravilhosa.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

A importância da perspectiva interior


Bens e compensações materiais são absolutamente necessários à sociedade humana, a um país, a uma nação. Ao mesmo tempo, somente o progresso material e a prosperidade não podem levar à paz interior. A paz interior vem de dentro. Portanto, nossa atitude perante a vida, perante os outros e principalmente em relação às nossas dificuldades conta muito. Quando duas pessoas enfrentam o mesmo problema, atitudes mentais distintas fazem com que o problema seja de mais fácil resolução para uma pessoa do que para outra. Desta forma, o que realmente nos diferencia é a perspectiva interna de cada um.

S.S. Dalai Lama.

Pequena prece antes de meditar


O corpo da meditação, dizem é a não-distração. Quaisquer pensamentos percebidos pela mente não são nada por si só. Ajude este meditador que repousa naturalmente na essência dos pensamentos que surgem a repousar na mente da forma como ela naturalmente é.

Praticando como a terra


E Shariputra respondeu a Buda diante de todos os monges e monjas da congregação: "Senhor, eu tenho tentado praticar como a terra. A terra é grande e aberta, e tem a capacidade de receber, aceitar e transformar. Quando as pessoas jogam sobre a terra substâncias puras e perfumadas, como por exemplo flores, perfume ou leite fresco, ou mesmo quando jogam nela substâncias repugnantes como excremento, urina, sangue, catarro ou cuspe, a terra recebe tudo da mesma maneira, sem apego nem repulsa. Não importa o que jogamos na terra, ela sempre acolhe, aceita e transforma tudo aquilo que recebe. Eu faço o que posso para ser como a terra, a tudo recebendo sem resistir, sem me queixar, nem sofrer."

ThichNhat Hanh em "A essência dos ensinamentos de Buda".   

A alegria de ser


   Pergunte a si mesmo: existem alegria, naturalidade e leveza no que estou fazendo? Se não existirem, é porque o tempo está encobrindo o momento presente e você está percebendo a vida como um encargo ou uma luta.
   A ausência de alegria, naturalidade ou leveza no que estamos fazendo não significa, necessariamente, que precisemos mudar o que estamos fazendo. Talvez baste mudarmos o como. "Como" é sempre mais importante do que "o quê". Verifique se você pode dar muito mais atenção ao fazer do que ao resultado desejado através do fazer. Dê a sua inteira atenção para o que quer que o momento apresente. Isso implica que você aceitou totalmente o que é, porque não se pode dar atenção completa a alguma coisa e, ao mesmo tempo, resistir a ela.

Eckhart Tolle em "Praticando o poder do agora"  

Existem muitas flores no seu jardim.


   Você talvez tenha uma bela casa e um jardim perfeitamente cuidados. Existem muitas flores no seu jardim. Você sabe que essas belas flores estão lá, mas nunca consegue apreciá-las. As pessoas talvez sintam muita inveja quando contemplam o seu jardim. Elas gostariam de ter um jardim como o seu onde pudessem caminhar e apreciar a grama, as flores e as árvores. Mas você não tem tempo para aproveitá-los porque está obececado em encontrar respostas para perguntas, resolver problemas, superar dificuldades e ser melhor do que todo o mundo no seu trabalho.    
   De vez em quando, você tem um lampejo de discernimento: "Tenho um belo jardim e preciso arranjar tempo para apreciá-lo." Assim sendo, decide passear no jardim. Anda um pouco e contempla as flores, as árvores e a grama. As suas intenções são boas. No entanto, depois de dar quatro ou cinco passos, você desiste, porque a sua preocupação com o trabalho é grande demais. Ela é como um ditadador, impedindo que você esteja presente para apreciar os milagres da vida disponíveis no aqui e no agora.

Thich Nhat Hanh em "A arte do poder". 

Mirando o aqui e o agora...


   Nosso esforço em despertar é como mirar o oposto do alvo. Como em todos os alvos, queremos acertar no centro exato. Trata-se, no entanto, do centro exato da iluminação. Se isso é justamente o que você está mirando, não pode fazê-lo com uma mente tendenciosa. Você não pode querer a iluminação da mesma forma como quer outras coisas. Não há absolutamente nada que venha depois. Então como devemos atingi-lá? Como podemos despertar?
   Normalmente um alvo é preparado de forma que, quanto mais próximo você chega do centro, mais pontos ganha. O alvo da iluiminação, no entanto, é inverso. O grande ponto no centro indica pontuação zero; o pequeno círculo em volta vale dez pontos; o que fica do lado de fora deste vale vinte e cinco; e a linha dos cem pontos é perto da borda mais exterior do alvo. Se você deseja marcar pontos, o melhor que tem a fazer é atirar fora do alvo. Mas, se realmente você quer despertar, terá de atingir o centro do alvo.
   Ao contrário do que acontece na arte de manejar o arco, atingir o centro exato da iluminação, neste caso, não requer habilidade, no sentido comum. Apenas empenhe o seu esforço em se manter desperto neste momento. Lembre-se simplesmente qual é o seu interesse em relação ao caminho - despertar - e, então volte para o aqui e o agora correto.

Steve Hagen em "Budismo claro e simples".