Archive for Março 2010

Determinação...

"A determinação deve basear-se numa união da força com a amabilidade. A melhor maneira de combater o mal é procurar progredir com energia na direção do bem."

I Ching: O livro das mutações.

A natureza intrínseca da mente.

   Por que o açúcar é doce e a água insípida? É a sua natureza intrínseca. O mesmo acontece com o pensamento e a quietude, com o prazer e com a dor - querer que o pensamento cesse, é pensar erroneamente. Algumas vezes impera o pensamento, outras, a quietude. Precisamos estar cônscios de que ambos são, por essência, transitórios, insatisfatórios, e jamais a causa de uma felicidade duradoura. Mas se continuarmos a nos preocupar e a pensar: "Estou sofrendo, quero parar de pensar", esse entendimento errôneo apenas complica as coisas. 
   Algumas vezes podemos ter a impressão de que pensar é sofrer, como se um ladrão estivesse roubando o presente. Que podemos fazer para impedi-lo? Durante o dia, há luz; durante a noite, há trevas. É isso, em si mesmo, o sofrimento? Somente se compararmos as coisas como são agora com outras situações já vividas, desejando que fossem o contrário. Em última análise, as coisas são exatamente como são - somente as comparações nos fazem sofrer.   

Achaan Chah em "Uma tranquila lagoa na floresta".  

Nascimento e morte.

   No budismo, não usamos realmente a palavra "reencarnação". Dizemos "renascimento". Mas mesmo renascimento é problemático. Segundo os ensinamentos do Buda, o "nascimento" não existe. O nascimento geralmente significa que nos tornamos algo a partir do nada, e a morte geralmente quer dizer que nos tornamos nada a partir de alguma coisa. Mas, se observarmos as coisas que nos cercam, descobriremos que nada surge do nada. Antes de seu chamado nascimento, a flor já existia sob outras formas - nuvens, a luz do sol, sementes, o solo e muitos outros elementos. Em vez de nascimento e renascimento, é mais preciso dizermos "manifestação" (vijñapti) e "remanifestação". O chamado dia de nascimento da flor é realmente o dia de sua remanifestação. Ela já estava presente sob outras formas, e agora fez um esforço para se remanifestar. A manifestação significa que seus componentes sempre estiveram presentes sob alguma forma, e agora, como as condições são suficientes, ela é capaz de se manifestar como flor. Quando as coisas se manifestam, geralmente dizemos que elas nascem, mas na verdade não é isso o que acontece. Quando as condições deixam de ser suficientes e a flor deixa de se manifestar, dizemos que a flor morreu, mas isso também não é correto. Seus componentes meramente se transformaram em outros elementos, como o adubo composto e o solo. Temos de transcender noções como nascimento, morte, ser e não-ser. A realidade é livre de todas a noções. 

Thich Nhat Hanh em "Vivendo Buda, vivendo Cristo".  

Lidando com inimigo.

   Um inimigo é uma pessoa que nos causou dano ou alguém que consideramos como tal por cometer, intencionalmente ou não, trapaças, abusos ou fraudes. Se a sua resposta for o ódio, o inimigo venceu. O inimigo deseja causar dano e, se a nossa resposta for contorcer o nosso coração pela raiva, o efeito da ação do inimigo encontrou eco. A pessoa que deseja nos causar dano deve ficar satisfeita ao nos atingir com o primeiro soco da sua agressão, e dobrará o resultado com o ressentimento infligido por nós. Na longa corrida, nossa própria raiva e ressentimento nos causarão um sofrimento maior do que o dano infligido por outra pessoa. Quando nossa resposta é ódio, nosso inimigo acertou em cheio. Por outro lado, podemos interromper o jogo dizendo: "Você me ofereceu de presente o seu ódio, mas eu escolhi não aceitar." Isso é possível. 
   Depois de um encontro com o inimigo, o ferimento que persiste é em consequência do dano que ele infligiu. O inimigo tem uma vida e, um dia irá embora. Depois de um encontro com o inimigo, a fonte da continuação do sofrimento é o verdadeiro inimigo, a raiva. Shantideva escreveu: "Inimigos, como um desejo ardente e o ódio, não têm braços, pernas. Não são corajosos, nem sábios. Como podem me aprisionar?" Entre todas as aflições mentais, não existe nenhuma mais virulenta e perniciosa do que a raiva. 

B. Alan Wallace em "Budismo com atitude".       

Cultive primeiro a compaixão.

   Em 1992, visitei o Samye Monastery, o monastério mais antigo no Tibete, um belo local que foi reconstruído após ter sido destruído durante a Revolução Cultural. Um velho iogue chamado Tenzin Zangpo, do Tibete Oriental, estava visitando o Samye na mesma época e dando aulas sobre o "Guia do estilo de vida do bodhisatva" de Shantideva. Fiquei muito interessado em aprender as experiências de contemplativos avançados, por isso solicitei um encontro com ele. Fiz perguntas ao velho iogue sobre a quietude meditativa, mas ele continuava a enfatizar: "Para a prática da meditação profunda, antes de tentar atingir a quietude, cultive primeiro a compaixão."
   A importância da compaixão pode ser determinada pela experiência. Quando o equilíbrio mental e a serenidade surgirem na prática meditativa, observe o que acontece com aquele sentimento de bem-estar sob a influência da raiva ou da irritação. Não é possível habitar no equilíbrio meditativo e ficar ressentido ao mesmo tempo. O equilíbrio da mente desmorona ante a raiva. 

B. Allan Wallace em "Budismo com atitude".   

Filhos do Pai vivo...

   Jesus disse: "Se aqueles que os orientam lhes disserem: 'Olhem, o Reino está no céu', então os pássaros do céu chegarão lá primeiro. Se eles disserem: 'Ele está no mar', então os peixes chegarão lá primeiro. Na verdade, o Reino está dentro de vocês, e está fora de vocês. Quando vierem a se conhecer, vocês se tornarão conhecidos, e compreenderão que são vocês os filhos do Pai vivo. Mas, se vocês não se conhecerem, então viverão na probreza e serão a pobreza."

Evangelho de Tomé.  

A mente conceitual e perceptual.

   O Budismo classifica as funções da mente em conceituais e perceptuais. A mente opera no modo conceitual, quando estamos pensando sobre o passado e planejando o futuro. No modo conceitual, tornamo-nos ansiosos pelos eventos, que podem ou não acontecer, ficamos zangados com pessoas que podem ou não fazer alguma coisa. No modo conceitual, a mente não está lidando com a realidade presente, mas com a interpretação da realidade. Esse modo conceitual, que utiliza a inteligência para planejar e integrar, é adequado em grande parte do tempo. 
   O modo perceptual da mente é geralmente esmagado pelos nossos conceitos. Quando estressada, a mente conceitual está cansada, podemos fazer um descanso optando pelo modo perceptual e prestando atenção à respiração. Mas quando dizemos para a mente conceitual dar uma parada, é difícil romper com o hábito de ser um monte de pensamentos. A mente conceitual fala dentro da meditação. Precisamos que a mente conceitual pense, planeje, coordene e lembre. Porém, uma mente conceitual que é ligada automaticamente de manhã, corre ininterruptamente 16 horas por dia, fazendo somente uma parada de oito horas para dormir todos os dias, isso não é saudável. 
   O saudável é explorar e desenvolver o modo perceptual da conscientização que silenciosamente atende sem comentários contínuos. Para explorar o modo perceptual, temos de superar a mente conceitual. Por exemplo, quando você está caminhando, pode deslizar para o modo perceptual, tornando-se consciente da respiração, estando presente em seu corpo ou permitindo que a conscientização esteja presente no ambiente. Dessa maneira, podemos lentamente começar a equilibrar a mente, pondo em equilíbrio os seus dois modos de funcionamento: o conceitual e o perceptual. 

B. Allan Wallace em "Budismo com atitude".      

O que é o vazio?

  O vazio sempre significa vazio de alguma coisa. O copo está vazio de água e a tigela está vazia de sopa. Nós estamos vazios de um "eu" independente e separado. Não podemos existir sozinhos. Só podemos existir em inter-relação com tudo o mais que existe no cosmos. A prática consiste em incentivar a compreensão do vazio durante todo o tempo. Aonde quer que vamos, entramos em contato com o vazio que existe em tudo. Olhamos para a mesa, o céu azul, o nosso amigo, a montanha, o rio, a raiva e a felicidade, entendendo que tudo isso está vazio de um "eu" independente e separado. Quando contemplamos essas coisas em profundidade, vemos a natureza interdependente de tudo o que existe. O vazio não significa, em absoluto, não-existência. Significa origem dependente, impermanência e não-eu.
   Quando ouvimos falar de vazio, ficamos assustados. Mas depois de praticar por algum tempo, entendemos que as coisas realmente existem, mas de um modo diferente do que pensávamos. O vazio é o caminho do meio entre a existência e a não-existência. A flor não se torna vazia quando murcha e morre, mas sempre foi vazia em sua essência. Está vazia de um eu independente e separado.

Thich Nhat Hanh em "A essência dos ensinamentos de Buda".

Purusha: algo que tem força...

   Uma das coisas que me ajudaram quando estava sozinho em meu quarto foi me lembrar que a palavra sânscrita para "ser humano" é purusha, que basicamente significa "algo que tem força". Ser humano siginifica ter força; mais especificamente, a força de realizar o que quisermos. E o que queremos remete ao impulso biológico básico de ser feliz e evitar a dor.
   Assim, no começo, desenvolver a bondade amorosa e a compaixão significa usar a si mesmo como o objeto de seu foco meditativo. O método mais fácil é um tipo de variação "da prática do escaneamento" descrita anteriormente. Se você estiver praticando formalmente, fique na postura dos sete pontos da melhor maneira possível. Fique com a coluna ereta enquanto mantém o restante do corpo relaxado e equilibrado e permita que sua mente relaxe em estado de mera consciência. 
   Após alguns momentos repousando sua mente na meditação sem objeto, faça um rápido "exercício de escaneamento", observando, gradualmente, seu corpo físico. À medida que escaneia seu corpo, permita-se reconhecer como esses fatos básicos da sua existência são magníficos, como você tem sorte de ter os dons deslumbrantes de um corpo e de uma mente! Repouse nesse reconhecimento por um momento e então, gentilmente, inclua o seguinte pensamento: "Como seria bom se eu pudesse desfrutar esse senso de bem-estar. Como seria bom se eu pudesse sempre desfrutar esse senso de bem-estar e todas as causas que me levam a me sentir feliz, tranquilo e bem."

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".       

A luz que mostra o caminho...

   Todos precisamos acreditar em algo bom, belo e verdadeiro. Quando nos refugiamos na plena consciência, na nossa capacidade de ficar conscientes do que está acontecendo no momento presente, estamos agindo de uma maneira segura e nem um pouco abstrata. Quando bebemos um copo d'água e sabemos que estamos bebendo um copo d'água, estamos mantendo a mente alerta. Quando nos sentamos, andamos, ficamos de pé ou respiramos e sabemos que estamos nos sentando, andando, ficando de pé ou respirando, tocamos a semente da plena consciência que existe dentro de nós, e, depois de alguns dias, nossa mente vai ficando cada vez mais desperta. A plena consciência é a luz que mostra o caminho. Ela é o Buda que vive dentro de nós. A mente alerta dá origem ao insight, ao despertar e ao amor. Todos temos dentro de nós a semente da plena consciência e, através da prática da respiração consciente, podemos aprender a entrar em contato com ela. Quando nos refugiamos na trindade budista - Buda, Dharma e Sangha -, estamos nos refugiando na plena consciência, na nossa respiração consciente e nos cinco elementos que compreendem o nosso eu. 

Thich Nhat Hanh em "Vivendo Buda, vivendo Cristo".   

A verdadeira felicidade...

   Precisamos distinguir a felicidade do entusiasmo ou mesmo da alegria. Muitas pessoas confundem entusiasmo ou animação com felicidade. Estão pensando em alguma coisa, ou esperando algo que consideram felicidade, de modo que, para elas, esse estado já é felicidade. Entretanto, quando você está animado, não está tranquilo. A verdadeira felicidade baseia-se na paz. 
   Suponha que você esteja caminhando pelo deserto e esteja morrendo de sede. De repente, avista um oásis e sabe que, ao chegar lá, encontrará um riacho do qual poderá beber para sobreviver. Embora não tenha efetivamente visto ou bebido a água, você sente alguma coisa -animação, esperança, alegria, mas não, ainda felicidade. Esta só tem lugar quando você efetivamente bebe a água e mitiga a sede. Se não tiver paz dentro de si, não terá sentido a verdadeira felicidade. 

Thich Nhat Hanh em "A arte do poder".  

A prática do sorriso consciente

   O próximo exercício é "Sorrir, liberar". "Ao inalar, eu sorrio; ao soltar o ar, eu relaxo. Ao inalar, sorrio para o meu corpo, acalmo o meu corpo. Ao inalar, sorrio para os meus sentimentos; ao soltar o ar, acalmo os meus sentimentos. Sorrir, liberar. " Sorrir é uma prática eficaz. Você não precisa se sentir plenamente feliz para poder sorrir, porque sorrir é uma prática iogue. Você pratica a ioga da boca. Mesmo que não esteja alegre, sorrir o ajuda a relaxar os músculos do rosto; quando está zangado ou com medo, esses músculos ficam tensos. Se olhar para o espelho nesse momento, conseguirá enxergar a tensão no seu rosto. Entretanto, se souber como respirar e sorrir, a tensão logo desaparecerá e você se sentirá muito melhor. Você pode ajudar uma pessoa tensa sorrindo para ela, o que fará com que ela se sinta bem melhor. "Ao inalar, eu sorrio. Ao soltar o ar, abandono a tensão."

Thich Nhat Hanh em "A arte do poder".     

Não podemos possuir nada...

   Enquanto contemplamos a impermanência, podemos examinar o que a permanência implicaria. A permanência seria complicada. Seria uma situação imutável, isolada no espaço, não afetada pelo tempo ou pelos elementos. Não teria princípio e nem fim, nem causas e condições. Tudo duraria para sempre. Não haveria estações do ano. Nunca nasceríamos, cresceríamos, nos apaixonaríamos, envelheceríamos ou morreríamos. Nunca comeríamos, pois jamais teríamos fome. Não poderíamos ter nenhum tipo de relação com nenhuma outra coisa, porque disso resultaria que mudaríamos. Ao contemplar a impermanência, percebemos que é impossível que a vida seja diferente. Começamos a  relaxar e desfrutar do constante jogo de luz e sombra, de vísivel e de invisível, de acréscimo e decréscimo.
   Contemplar a impermanência pode ser uma experiência libertadora que nos traz moderação e alegria. Essencialmente, passamos a ser menos apegados. Damo-nos conta de que não podemos possuir nada. Temos dinheiro e ele se vai; estamos tristes e em seguida já não estamos mais. Não importa quanto nos agarremos aos nossos entes queridos, por sua própria natureza todos os relacionamentos são um encontro e uma separação. Isso não quer dizer que temos menos amor. Significa que temos menos fixação, menos dor. Significa que temos mais liberdade e que valorizamos mais as situações, porque podemos relaxar nos altos e baixos da vida. 
   Entender o significado da impermanência nos transforma em pessoas menos desesperadas. Dá-nos dignidade. Deixamos de agarrar-nos ao prazer, na tentativa de espremê-lo até a última gota. Já não consideramos a dor como algo a ser temido, negado e evitado. Sabemos que mudará. Isso nos orienta com firmeza para a abertura da mente da iluminação. Aprendemos a olhar para o que está a nossa frente. Não precisamos mais fazer de conta que a felicidade é permanente: "Se eu me esforçar no trabalho, ganharei muito dinheiro e depois serei feliz". Percebemos que não é isso que traz a felicidade; ela vem do cultivo das virtudes que nos conduzem à iluminação. No final das contas, ela se origina da sabedoria, da compreensão da imutável verdade da mudança.

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".     

Molduras...

   A verdade, claro, é que ninguém pode apreender toda a realidade, que o universo de cada pessoa é, até certo ponto único, e que essa circunstância torna impossível provarmos a existência de apenas uma realidade autêntica. Mesmo que nos pudéssemos libertar da fantasia e da ilusão (não porque isso seja necessariamente uma boa idéia), no máximo só chegaríamos a um acordo em relação a pequenos fragmentos da realidade. Portanto, tudo está emoldurado, cortado no seu contexto cósmico pelas limitações e peculiaridades de nossos sentidos, pelos preconceitos de nossos pressupostos, pela multiplicidade de cada mente individual e pelas restrições de nossa linguagem. Podemos sentir-nos mais à vontade com nossa própria moldura referencial do que com a dos outros, e considerá-la mais válida, mas as molduras ali estão, apesar disso. Não há como fugir delas; o universo conhecido é, e sempre será em certo sentido, uma criação de nossas mentes (que esperamos que sejam criativas). Magritte deixou isso claro num quadro de 1933, no qual uma tela sobre um cavalete registra todos os detalhes da vista para além da janela que ela parcialemente obstrui, e que incluem até nuvens cúmulus que passam. Deu a esse quadro o nome de A condição humana.    

Timothy Ferris em "O céu da mente".