Archive for Maio 2009

Transformando a compreensão do sofrimento


Algumas vezes nos sentimos afogando-nos no oceano de sofrimento, e carregando o peso das injustiças sociais de todos os tempos. O Buda disse "Quando uma pessoa sábia sofre, ela se pergunta: "O que posso fazer para me libertar dessa dor? Quem pode me ajudar? O que tenho feito para me livrar desse sofrimento?". Mas quando uma pessoa tola sofre, ela se pergunta: "Quem me fez passar por isso? Como posso mostrar aos outros que sou uma vítima injustiçada? Como posso punir aqueles me causara esse sofrimento?"

É claro que você tem o direito a sofrer, mas na condição de praticante, você não tem o direito de deixar de praticar. Todos nós precisamos ser compreendidos e amados, mas a prática não é simplesmente esperar a compreensão e o amor dos outros. Por favor, não se queixe quando parecer que ninguém é capaz de compreendê-lo nem amá-lo, mas faça o esforço de compreender e amar os outros melhor. Se alguém o traiu, pergunte o por quê. Se achar que a responsabilidade é inteiramente do outro lado, olhe com mais profundidade. Talvez você tenha irrigado as sementes da traição na outra pessoa. Talvez você tenha vivido de forma tal a incentivar a outra pessoa a se fechar. Nós somos co-responsáveis, e se você insistir na atitude de culpar os outros, a situação só vai piorar.

Thich Nhat Hanh em "A essência dos ensinamentos de Buda".

Será que a mente inventou a própria mente?


Sente-se ereto, com o diafragma decontraído, o peito aberto, os ombros bem colocados e relaxados, repirando pelo ventre. Relaxe toda a área do rosto, especialmente o entorno dos olhos. Traga sua atenção para o espaço diante de você, diretamente na linha do seu olhar, ao longo da linha do nariz, mas sem focalizar. Deixe que sua consciência visual paire suavemente no que os tibetanos chamam de "espaço de dentro". Por um minuto, ou dois, volte sua atenção para dentro. Assim que um pensamento, lembrança, imaginação ou qualquer evento mental surgir, esteja presente nele e consciente dele. Ele não deverá se dissipar sem que seja notado. Você o detecta rapidamente, sem impedi-lo. Para tudo que surgir na sua mente, você está ali no presente, sem deslizar para as memórias ou para a imaginação, mas flutuando ali na entrada da mente onde emergem os eventos mentais. Permaneça ali por um minuto ou dois, estabelecendo a mente no seu estado natural.

Agora prossiga para a prática do insight, examinando a natureza não nascida da consciência. Esta prática é parte do terma, ou ensinamentos do tesouro, o Natural Liberation: Padmasambhava's Teachings on the Six Bardos. Este terma foi descoberto por Karma Lingpa, no século XIV, em uma caverna na montanha Gampo Dar, no Tibete Central, e é atribuído ao mestre indiano do tantra do século VIII, Padmasambhava. Ele passou a seguinte instrução quintessencial:
Enquanto sustenta o olhar firme, mantenha a consciência inabalável, firme, clara, sem distrações e fixada, sem ter nada sobre o que meditar, na esfera do espaço. Quando a estabilidade aumentar, examine a consciência, que é estável. Então, gentilmente, libere e relaxe. Coloque-a de novo firme e resolutamente observe a consciência desse momento. Qual é a natureza dessa mente? Permita que ela se observe fixamente. É clara e firme ou é um vazio que é nada? Existe algo ali a ser reconhecido? Observe novamente. (...) Observe aquilo que esta colocando e a mente que está sendo colocada se são um ou dois. Se não houver mais do que um, esta é a mente? Como é a mente? Com firmeza, observe a consciência do meditador e investigue-a. Na verdade, esta chamada mente realmente existe? Ou existe um vazio, que é o nada? Se você disser que é um vazio que é o nada, então, como um vazio que é o nada sabe meditar? De que adianta dizer que você não pode percebê-lo? Se for realmente o nada, o que é que produz o ódio? Não existe alguém que pense que a mente não foi descoberta? Pondere sobre isso com perseverança.
B. Allan Wallace em "Budismo com atitude"

A compreensão budista do eu

O Budismo Tibetano ensina que todas as pessoas nascem inocentes. Quando pequenos, temos permissão, dependendo das circunstâncias familiares, para ser livres de espírito e para expressar esse amor original. Então, chega o momento de ir para a escola e a nossa visão natural começa a ser controlada. O deslumbramento e a curiosidade foram enterrados sob montes de informações intelectuais. A nossa relação com o mundo passa do coração ao cérebro, à medida que o senso do eu se torna mais profundo e se alarga a separação entre nós e os outros. O Buda ensina que esse senso de um eu aparentemente sólido é a causa subjacente de todos os nossos males.
Aprimoramos esse senso de eu à medida que crescemos e ele passa a definir a confiança, a auto-estima e o bem-estar mental. Mas todas essas qualidades têm uma base frágil porque são baseadas numa criação - quem somos, o eu - que simplesmente não existe. A ansiedade e o medo se perpetuam porque o edifício pode ruir a qualquer momento (o que invariavelmente acontece), já que todos os fenômenos são impermenentes. A única segurança psicológica,a única auto-confiança genuína, duradoura e confiável vem com a descoberta da natureza imaculada como o céu da nossa verdadeira mente, a inocência original com que nascemos - a nossa natureza búdica. Nós a atingimos por meio da prática da meditação.


Ralph Quilan Forde em "O livro da medicina tibetana".

O vaso e a vida.

Numa aula de filosofia, o professor tomou um vaso de boca larga e dentro colocou primeiramente, algumas pedras grandes. Perguntou, então, à turma: "Está cheio?". Pelo que viam, o vaso estava repleto e, por isso, os alunos responderam: "Sim!". O professor, então, tomou um balde cheio de pedrinhas e virou dentro do vaso, tendo as pedrinhas se alojado nos espaços entre as pedras grandes. Então, ele perguntou aos alunos: "E agora, está cheio?", e os alunos responderam: "Sim!". Veio o professor agora com um saco de areia e entornou dentro do vaso, procedendo a mesma pergunta. Os alunos, embora hesitantes agora, responderam afirmativamente mais uma vez, já que a areia preencheu os espaços entre as pedras e as pedrinhas. Finalmente, o professor tomou um jarro com água e despejou dentro do vaso, tendo o líquido encharcado e saturado a areia. Nesse ponto, o professor perguntou: "Qual é o objetivo desta demonstração?". Um jovem e brilhante aluno respondeu: "Não importa o quanto a nossa agenda esteja cheia; sempre se vai conseguir espremer e caber mais atividades". O professor então tomou a palavra e disse: "Não é bem isso. A menos que você, em primeiro lugar, coloque as pedras grandes dentro do vaso, nunca mais conseguirá fazê-lo". E pôs à disposição da turma, material igual ao primeiro vaso, ficando os alunos surpresos de não conseguirem, invertendo a ordem, que coubessem as pedras grandes. Elas sobraram. O vaso já estava repleto com as coisas menores. E aí vem a explicação final: "As pedras grandes são as coisas realmente importantes de sua vida: seu crescimento pessoal e espiritual. Quando você dá prioridade a isso e se mantém aberto para o novo, as demais coisas vão se ajustando por si só: seus relacionamentos (família, amigos), suas obrigações (profissão, afazeres domésticos), seus bens e direitos materiais e todas as demais coisas menores que completam a vida. Mas se você preencher sua vida prioritariamente com as coisas pequenas, então as que são realmente importantes nunca terão espaço". Esvazie seus vasos e recomece a preenchê-los com as pedras grandes. Ainda há tempo...
Ainda é tempo.

Nosso propósito interior


Tão logo superamos a preocupação com a mera sobrevivência, a questão do sentido e do propósito se torna de capital importância para nós. Muitas pessoas se sentem aprisionadas nas rotinas do cotidiano, que parecem privar sua vida de significado. Algumas acreditam que a vida está passando ou já passou por elas. Outras se vêem profundamente limitadas pela necessidade de trabalhar e cuidar da família ou por sua condição financeira ou de vida. Há indivíduos que são devastados por um estresse agudo, enquanto outros se consomem num imenso tédio. Há quem esteja envolvido numa atividade frenética e quem se veja perdido na estagnação. Muita gente anseia pela liberdade e pelo crescimento que a prosperidade promete. Mas há pessoas que já desfrutam da relativa liberdade que acompanha a prosperidade e, mesmo assim, constatam que isso não é o bastante para dar um sentido completo à sua vida. Nada substitui a descoberta do verdadeiro propósito. No entanto, o significado genuíno, ou primário, da vida não pode ser encontrado no nível exterior. Ele não diz respeito ao que fazemos, e sim ao que somos - isto é, ao nosso estado de consciência.

(...)

Nosso propósito interior é despertar, é simples assim. Nós o compartilhamos com todas as pessoas do planeta porque esse é o propósito da humanidade. O propósito interior de cada indivíduo é uma parte essencial do propósito do todo - do universo e da sua inteligência emergente. Por outro lado, o propósito exterior pode mudar ao longo do tempo. Ele varia significativamente de pessoa para pessoa. Encontrar o propósito interior e viver alinhado com ele é o alicerce para o propósito exterior. É a base para o verdadeiro sucesso. Sem esse alinhamento, até conseguimos alcançar determinadas metas por meio do esforço, da luta, da determinação e do puro trabalho intenso ou da esperteza e da habilidade. Mas não existe alegria nestes empreendimentos, e eles costumam acabar em alguma forma de sofrimento.

Eckhart Tolle em "Um novo mundo. O despertar de uma nova consciência".

Escolhas

A qualquer momento, você pode escolher seguir a cadeia de seus pensamentos, emoções e sensações que reforçam uma percepção de si mesmo como vulnerável e limitado ou lembrar-se de que sua verdadeira natureza é pura, incondicionada e incapaz de ser prejudicada. Você pode permanecer no sono da ignorância ou lembrar-se de que está e sempre esteve desperto. De qualquer modo, você ainda estará expressando a natureza ilimitada de seu verdadeiro ser. Ignorância, vulnerabilidade, medo, raiva e desejo são expressões do potencial infinito de sua natureza búdica. Não há nada de inerentemente errado ou certo em fazer uma ou outra escolha. O fruto da prática budista é o reconhecimento de que essa e outras aflições mentais não são nada mais ou menos do que escolhas disponíveis a nós, porque nossa verdadeira natureza é infinita em escopo.
Escolhemos a ignorância porque podemos. Escolhemos a consciência porque podemos. O samsara e o nirvana são diferentes pontos de vista baseados nas escolhas que fazemos em como encarar e compreender nossas experiências. Não há nada de mágico no nirvana e nada de mau ou errado no samsara. Se você está determinado a pensar em si mesmo como limitado, temeroso, vulnerável ou traumatizado pelas experiências passadas, saiba apenas que você escolheu isso e que sempre há a oportunidade de se vivenciar de forma diferente.
Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".


Sobre a morte...e sobre a vida.

"A questão central sobre a morte, existente em todas as tradições religiosas, é: quem é que morre? Jesus fala de ter de "morrer" para ganhar a vida eterna. Da mesma maneira, Buda disse que tinha atingido o "estado sem morte", também chamado de "estado não-nascido". Quem é que "não morre"? Referências a um "estado sem morte" e a uma "vida eterna" nas tradições religiosas do mundo levantam uma questão a respeito das suposições materialistas tidas como certas no Ocidente. Somos inevitavelmente vítimas da morte? As tradições espirituais apontam para uma realidade mais profunda na qual a vida após a morte é flexível. Quem é que morre? Enquanto eu me identificar com este corpo, eu vou morrer. Se eu me identificar com minha inteligência, minha educação, meus projetos, empreendimentos, pensamentos e memórias, eu vou morrer. Todos os eventos mentais dependentes do sistema nervoso humano cessarão quando o sistema nervoso morrer. Sua mente e sua inteligência, dependentes do cérebro, morrerão quando o cérebro morrer.

O que não é dependente do corpo não pode morrer. Aquilo a que o Buda se refere como "sem morte" é a consciência pura - ampla, vívida e atenta, sem se agarrar e sem se identificar -, a conscientização livre da identificação com o corpo e que observa as sensações surgirem e passarem, que observa os eventos mentais e os sentimentos, que observa todos os fenômenos surgindo e passando no espaço como nuvens que se dissolvem no céu. Se eu não estou identificado com este corpo, com as memórias, desejos ou sentimentos, quem morre?"
B. Allan Wallace em "Budismo com atitude".

Oportunidades


Dentro deste ciclo de existência, renascimento após renascimento, estendendo-se para trás através de um tempo imensurável num ciclo infinito de universos, existem raras ocasiões em que surgimos em um renascimento humano de lazer e oportunidade. O Buda usava uma metáfora para exemplificar a raridade de uma preciosa vida humana de lazer e oportunidade: imagine uma tartaruga nadando submersa em um vasto oceano e subindo à superfície somente uma vez a cada 100 anos. Os momentos de renascimento humano são similares aos momentos pouco frequentes que a tartaruga sobe em busca de ar. Agora imagine uma canga de boi flutuando no mesmo oceano. Considere as chances de a tartaruga enfiar a cabeça através dessa canga, ao subir em busca de ar a cada 100 anos. Este é o significado de "raridade" na "rara preciosa vida humana de lazer e oportunidade". O objetivo da meditação discursiva sobre a rara oportunidade de uma preciosa vida humana de lazer e oportunidade é nos motivar a usar sabiamente nossa rara oportunidade.


B. Alan Wallace em "Budismo com atitude"

Samsara

"Como um véu, qual névoa pouco espessa, a fadiga envolvia Sidarta, lentamente, tornando-se mais densa dia a dia, mais turva mês em mês, mais pesada de ano em ano. Assim como um belo vestido se desgasta com o tempo, e com o tempo desbotam as suas belas cores, assim como nele se criam rugas, e os debruns se tornam puídos, e a fazenda em alguns lugares começa a desfiar, assim envelhecera também aquela vida diferente que Sidarta iniciara, depois de separar-se de Govinda. Enquanto os anos se escoavam, perdera seu brilho e colorido. Rugas e manchas apareciam nela e, no seu fundo, ainda ocultos, porém de quando em quando exibindo o semblante feio, repousavam o nojo e a desilusão. Sidarta não notou nada disso. Apenas percebeu que silenciara aquela voz clara, firme, que outrora ressoava em seu coração e o norteara continuamente no apogeu de sua existência.

O mundo apanhara-0 nas suas malhas, o prazer, a cobiça, a inércia e, finalmente, também aquele vício que se sempre lhe afigurara o mais estúpido de todos: a avareza."


Herman Hesse em "Sidarta".

Ignorância

A ignorância é a incapacidade fundamental de reconhecer o potencial, a clareza e o poder infinito de nossas próprias mentes, como se estivéssemos olhando para o mundo através de lentes coloridas: tudo o que vemos é mascarado ou distorcido pelas cores das lentes. No nível mais essencial, a ignorância distorce a experiência basicamente aberta da consciência, formando a ilusão das distinções dualistas entre categorias inerentemente existentes de "eu" e "outro".

A ignorância é, assim, um problema de duas faces. Assim que formamos o hábito neuronal de nos identificar com um "eu" único e independentemente existente, é inevitável que comecemos a ver tudo o que não é "eu" como "outro". O "outro" pode ser qualquer coisa: uma mesa, uma banana, outra pessoa ou até algo que esse "eu" esteja pensando ou sentindo. Tudo o que vivenciamos se torna, em certo sentido, um estranho. E, a medida que nos acostumamos a distinguir entre "eu" e "outro", prendemo-nos a um modo dualista de percepção, traçando fronteiras conceituais entre o nosso "eu" e o resto do mundo "lá fora", um mundo que parece tão vasto que quase não podemos evitar de nos considerar muito pequenos, limitados e vulneráveis. Começamos a olhar para as outras pessoas, objetos materiais e assim por diante como fontes potenciais de felicidade e infelicidade, e a vida se transforma em uma luta para conseguir aquilo que precisamos para sermos felizes antes que outra pessoa o pegue.

Essa luta é conhecida em sânscrito como samsara, que significa literalmente "roda" ou "círculo". O samsara se refere à roda ou ao círculo da infelicidade, um hábito de correr em círculos, perseguindo as mesmas experiências várias e várias vezes, a cada vez esperando um resultado diferente. Se você já viu um cão ou um gato perseguindo o próprio rabo, já testemunhou a essência do samsara. E, apesar de poder ser divertido ver um animal perseguir o rabo, não é tão divertido quando a sua própria mente faz a mesma coisa.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

O significado de prajna...


"Prajna é a natureza de Buda que existe em nós. É o tipo de compreensão que tem o poder de nos levar à outra margem, a margem da liberdade, da emancipação e da paz."


Tchich Nhat Hanh em "A essência dos ensinamentos de Buda"