Archive for Agosto 2009

Grilhões da mente

Buscador: "Ensina-me o caminho para a libertação."
Mestre zen: "Quem te mantém atado?"
Buscador: "Ninguém."
Mestre zen: "Então, por que buscas a liberação?"
Nossa prisão, nosso calabouço, está em nós. Está na nossa mente, no nosso pensamento. Prendemo-nos nas cadeias de nossa própria criação, e fazemos o mesmo uns com os outros. Tornamos nossos filhos afeitos aos grilhões.
Tudo isso baseia-se na ignorância. Não vemos o que somos. Não vemos a nossa situação pelo que ela é. Tampouco vemos como lidar com ela. Como Yang Chu diz, passamos pelas alegrias da vida sem saber que perdemos algo.
Steve Hagen em "Budismo claro e simples".

Refletindo a lua

A lua vivificante do Buda está cruzando um céu absolutamente vazio. Se o lago da mente estiver calmo, a linda lua nele se refletirá.


Thich Nhat Hanh em "Vivendo em paz".

A superação dos obstáculos

Quando falamos em eliminar estados mentais negativos, há um ponto que devemos ter em mente. Dentro da prática budista, o cultivo de certas qualidades mentais positivas específicas, como a paciência, a tolerância, a benevolência, entre outras, pode atuar como um antídoto específico para estados mentais negativos como a raiva, o ódio e o apego. A aplicação de antídotos tais como o amor e a compaixão pode reduzir significativamente o grau ou influência das aflições mentais e emocionais; mas, como eles procuraram eliminar apenas determinadas emoções aflitivas específicas ou individuais, em certo sentido podem ser vistos apenas como medidas parciais. Estas emoções aflitivas, tais como o apego e o ódio, estão em última análise enraizadas na ignorância - na percepção equivocada da verdadeira natureza da realidade. Portanto, parece haver um consenso entre todas as tradições budistas de que, afim de superar plenamente todas estas tendências negativas, é preciso aplicar o antídoto contra a ignorância - o "fator sabedoria". Este é indispensável. O "fator sabedoria" envolve a produção de insight que penetre na verdadeira natureza da realidade.
Dalai Lama em "A arte da felicidade".

Meditação andando

Meditação andando é meditar enquanto se anda. Andamos devagar, de forma descontraída, mantendo um leve sorriso nos lábios. Com essa prática, nós nos sentimos profundamente à vontade, e nossos passos serão os da pessoa mais segura do mundo. Todas as nossas preocupações e ansiedades desaparecerão; paz e alegria vão encher o nosso coração. Toda pessoa pode fazê-lo. Leva apenas um pouco de tempo, requer um certo grau de consciência e o desejo de ser feliz.

Thich Nhat Hanh em "Meditação andando".

Direções

"Aprenda como se fosse viver para sempre,
viva como se fosse morrer amanhã."
Mahtama Gandhi

Laboratório da mente

Todo o sofrimento vem da mente; a liberdade suprema vem do estudo da mente. A meditação visa reduzir a atividade mental e iniciar o processo de descontrução do egocentrismo. A meta da meditação é fazer com que você tome conhecimento do seu espaço interior e de quão vasto ele é. A meditação é o laboratório em que você descontrói o eu. Segundo se diz, o nirvana começa quando a mente passa a olhar para dentro em vez de reagir a tudo o que há fora dela.

Ralph Quinlan Forde em "O livro da medicina tibetana".

Tocando milagres

De acordo com o Buda, meu mestre, a vida só está disponível no aqui e agora. O passado já se foi e o futuro ainda não chegou. Só existe um momento para se viver: o presente. Assim a primeira coisa que eu faço é voltar ao momento presente. Ao fazer isso, toco profundamente a minha vida. Cada passo que dou é vida. O ar que eu respiro é vida. Consigo tocar o céu azul e a vegetação. Posso ouvir o canto dos pássaros e a voz de outros seres humanos. Se conseguirmos retornarmos ao aqui e agora, seremos capazes de tocar os inúmeros milagres da vida que estão à nossa disposição.

Muitos acham que a felicidade não é disponível no momento presente. Quase todos acreditam que existem algumas condições a mais que precisam ser satisfeitas para que se possa ser feliz. É por isso que somos sugados pelo futuro e não somos capazes de estar presentes no aqui e agora. É por isso que passamos por cima de muitos milagres da vida - não conseguimos estar no momento presente, onde existem cura, transformação e alegria.

Thich Nhat Hanh em "Sinta-se livre onde você estiver".

Lidando com pensamentos desagradáveis

Especialmente se a meditação for uma prática nova para você, pode ser muito difícil observar pensamentos relacionados a experiências desagradáveis - em particular aquelas relacionadas a emoções fortes, como ciúmes, raiva, medo ou inveja - com pura atenção. Esse pensamentos podem ser tão fortes e persistentes que é fácil prender-se a eles e ceder à tentação de segui-los. Não tenho dedos o suficiente para contar o número de pessoas que conheci que discutiram esse problema comigo, especialmente se os pensamentos que elas vivenciam se relacionam com brigas que tiveram com alguém em casa, no escritório ou em outro lugar e que elas não conseguem esquecer. Dia após dia, suas mentes retornam às idéias que elas relacionam ao que foi dito e feito e elas se vêem presas pensando em como a outra pessoa foi horrível, no que elas poderiam ou deveriam ter dito ou feito na hora e o que elas gostariam de fazer para se vingar.

A melhor forma de lidar com esse tipo de pensamento é distanciar-se e repousar a sua mente no shinay sem objeto por um minuto e então direcionar a atenção para cada pensamento e as idéias que resolvem em torno dele, observando-os diretamente por alguns minutos, da mesma maneira como você observaria a forma ou a cor de algo. Permita-se alternar entre repousar sua mente na meditação sem objeto e conduzir sua atenção de volta aos mesmos pensamentos.

Quando você trabalha com pensamentos negativos dessa forma, duas coisas ocorrem. Primeiro, à medida que você repousa na consciência, sua mente começa a se acalmar. Segundo, você descobrirá que sua atenção a pensamentos ou histórias específicas vem e vai, da mesma forma que ocorre quando você está trabalhando formas, sons e outros suportes sensorias. E, à medida que esse pensamento ou história é interrompido por outras questões - como estender roupas lavadas, fazer compras ou preparar uma refeição - , as idéias desagradáveis gradualmente perdem força em sua mente. Você começa a perceber que elas não são tão sólidas como pareciam no começo. É como um sinal de ocupado ao telefone - irritante, mas nada com o qual você não consiga lidar.
Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

Meditar

"Meditar não significa lutar contra um problema. Meditar significa observar. Seu sorriso demonstra isto. Demonstra que você está sendo gentil com você mesmo, que o sol da plena consciência está brilhando através de você, que você tem o controle da situação. Você é você mesmo, e adquiriu alguma paz."

Thich Nhat Hanh em http://www.plumvillage.org/

A natureza búdica

A natureza búdica não é uma qualidade especial disponível a uns poucos privilegiados. A verdadeira indicação de ter reconhecido sua natureza búdica é perceber como ela é comum - a habilidade de ver que todo o ser vivo compartilha essa natureza, apesar de nem todos poderem reconhecê-la. Assim, em vez de fechar o seu coração para as pessoas que gritam com você ou agem de alguma outra maneira negativa, você se percebe se tornando mais aberto. Você reconhece que eles não são estúpidos, mas pessoas que, como você querem ser felizes e estar em paz; eles só estão agindo de forma estúpida porque não reconheceram sua verdadeira natureza e estão dominados por sensações de vulnerabilidade e medo.

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

A prática do bodhisattva

Por que estamos tão felizes? Porque nos libertamos do eu. Trabalhar para fazer feliz o eu somente causa dor. Trabalhar pela felicidade dos outros nos traz alegria. Não praticamos o bodhichitta porque é bom para nós; nós o praticamos porque conhecemos a verdade vivificante, brilhante e vazia, da bondade fundamental. Quando sabemos essa verdade, oferecer amor e compaixão é tudo o que resta a fazer. Não nadamos mais contra a corrente. Essa é a base de nossa conduta como bodhisattvas guerreiros. Irradiar o calor do amor é simplicidade pura; gerar os raios frescos da compaixão é um alívio; manter a ilusão de um eu separado, sólido, é efadonho - trabalho árduo sem nenhum sentido de satisfação. Não procuramos mais meios de evasão para não praticar o bodhichitta.
Apesar disso, precisamos usar o senso comum. É importante que cuidemos de nós. É como primeiro colocar sua própria máscara de oxigênio quando o avião perde altitude, e depois ajudar os outros a colocarem as suas. Tampouco deveríamos começar com projetos grandes demais, que não sejamos capazes de concluir. (...) É importante que escolhamos atos de compaixão e de bondade que possamos completar. Então poderemos dar um segundo passo, um pouco maior. Pode ser que tenhamos dificuldades em nosso passeio, mas nunca desistiremos. Agora vemos com clareza que cada ato é uma oportunidade para amadurecer a mente da iluminação e, realmente, queremos seguir em frente. A armadura do empenho é também a armadura da alegria.

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".

Sou feliz agora. Não me falta nada.

É verdade que existe uma enorme quantidade de sofrimento por este mundo afora, mas o fato de saber disso não significa que estamos paralisados. Se praticarmos a respiração, a caminhada, a meditação e o trabalho com consciência, e fizermos o melhor que pudermos para ajudar os outros, teremos paz no coração. A preocupação não realiza nada. Mesmo se nos preocuparmos dez vezes mais, isso não melhorará em nada a situação do mundo. Na verdade, a ansiedade só faz piorar as coisas. Mesmo sabendo que nada é como gostaríamos que fosse, devemos ficar contentes mesmo assim, porque estamos dando o nosso melhor, e continuaremos a fazer isso. Se não soubermos respirar, sorrir e viver com atenção e profundidade cada momento de nossa vida, nunca poderemos ajudar ninguém. Sou feliz agora. Não me falta nada. Não espero nenhum tipo de felicidade adicional nem condições ideais para ser mais feliz ainda. A prática mais importante é a ausência de objetivo, em vez de ficar correndo atrás das coisas intensamente.
Thich Nhat Hanh em "A essência dos ensinamentos do Buda".

Mente verdadeira

A mente iludida é causada e condicionada. A mente verdadeira também é causada e condicionada. O mundo que se manifesta baseado na mente iludida é cheio de sofrimento. O mundo que se manifesta baseado na mente verdadeira é um mundo de felicidade e paz. Não é necessário deixar o mundo que surge da mente iludida para alcançar o mundo que provém da mente verdadeira. O mundo da mente verdadeira se revela quando o mundo da mente iludida está latente. Temos apenas que mudar a direção do nosso olhar para que o maravilhoso mundo do Avatamsaka, o mundo baseado na mente verdadeira, apareça.

Thich Nhat Hanh em "Transformações na consciência".

As oito preocupações mundanas

As oito preocupações mundanas consistem em quatro pares de prioridades: buscar aquisições materiais e evitar a sua perda; buscar o prazer adquirido pelo estímulo e evitar o desconforto; buscar o elogio e evitar a culpa; e manter a boa reputação e evitar a má reputação. Estas oito preocupações resumem, em geral, nossa motivação pela busca da felicidade.

O problema é que, quando encaramos as preocupações mundanas como um meio para a felicidade, a vida se torna um jogo de dados. Não há garantias. Se você aspira à riqueza material, pode não conquistá-la, e se conseguir, não há garantias de que será feliz. Se aspira ao prazer, quando o estímulo acabar, a satisfação também terminará. Não existe felicidade duradoura em sair correndo atrás do prazer. As pessoas que são respeitadas e famosas tendem a ter os mesmos problemas pessoais que as outras. A deficiência fatal das oito preocupações mundanas é que elas simulam o dharma, desviam as maneiras de buscar a felicidade e, ao confundir habitualmente as preocupações mundanas como o dharma genuíno, nossos esforços para atingir a felicidade genuína são continuamente solapados.


B. Alan Wallace em "Budismo com atitude".

Visão correta

A visão correta é a primeira prática do nobre caminho óctuplo, o qual inclui também pensamento correto, fala correta, atitude correta, meio de vida correto, esforço correto, plena atenção atenção correta e concentração correta. A visão correta, a visão clara da consciência mental, é o primeiro passo no caminho do despertar. Enquanto comemos, andamos, lavamos ou cozinhamos, a visão clara da nossa consciência mental está regando a semente de bodhi, o despertar, com a água da correta plena atenção. Essa água que alimenta a semente de bodhi que, quanto mais atenção e cuidado recebe, mais cresce. Quanto mais ela cresce, mais confiança temos na prática. Com a prática da plena consciência, o botão desabrocha e se transforma numa bela árvore de bodhi. Onde quer que haja uma árvore bodhi, existe um buda. A semente do despertar faz surgir a semente do amor. Somente, a plena consciência pode nos fazer instaurar a compreensão onde antes havia confusão e trevas.

Thich Nhat Hanh em "Transformações na consciência".

Aspirina


"A felicidade temporária é como uma aspirina para a mente, proporcionando algumas horas de alívio da dor emocional. A felicidade permanente vem do tratamento das causas que fundamentam o sofrimento."


Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

Mantras poderosos

Se amamos realmente alguém, temos que estar inteiramente presentes para essa pessoa. Conheci um menino de dez anos cujo pai sempre lhe perguntava o que queria ganhar como presente de aniversário, e a sua resposta era: "Papai, quero você!" O pai era muito ocupado. Não tinha tempo para a família. O filho sabia que a melhor coisa que seu pai poderia lhe dar seria sua presença de verdade.

Quando estamos concentrados - corpo e mente em acordo -, qualquer coisa que dissermos poderá ser um mantra. Não precisa ser dito em sânscrito. Poderá ser pronunciado no nosso próprio idioma: "Querido(a), estou aqui para você." Se estivermos inteiramente presentes, esse mantra produzirá um milagre. Nós nos tornamos reais, a pessoa para quem dizemos se torna real nesse momento. Proporcionamos felicidade para nós e para a outra pessoa. Esse é o melhor presente que podemos oferecer a quem amamos. Amar é estarmos presentes para a pessoa.

"Eu sei que você está aqui e estou muito feliz" é um segundo mantra. Quando extasiado, olho para a Lua, inspiro e expiro profundamente e digo: "Lua cheia, sei que você está aí e estou muito feliz." Faço o mesmo olhando a estrela d'alva. Na Coréia, enquanto caminhava entre as árvores de magnólia durante a primavera, admirando as flores tão belas, dizia: "Sei que vocês estão aí e fico muito feliz." Estar presente de verdade e saber que o outro também está ali é um milagre. Toda vez que realmente estamos ali, somos capazes de reconhecer e apreciar a presença do outro - a lua cheia, a estrela d'alva, as flores de magnólia, a pessoa mais amada. (...)

Há um terceiro mantra: "Querido(a), sei que está sofrendo. Por isso estou aqui para você." Se você tiver a atenção plena, perceberá quando o seu amado(a) está sofrendo. Sente-se ao lado dele(a) e diga: "Querido(a), sei que está sofrendo. Por isso estou aqui para você."Só isso trará um grande alívio.

Existe um quarto mantra que poderá praticar quando você estiver sofrendo: "Querido(a), estou sofrendo. Por favor, me ajude." Apenas sete palavras, porém às vezes difíceis de pronunciar porque existe orgulho no nosso coração, principalmente se acreditamos que a pessoa amada é a causadora do sofrimento. Se fosse outro indivíduo, não seria tão duro. Queremos ir para o quarto e soluçar. Mas, se realmente a amamos e estivermos sofrendo assim, temos que pedir ajuda. Temos de superar o nosso orgulho.


Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".

Colhendo mangas

Quando você tem sabedoria, o contato com os objetos sensoriais, bons ou maus, agradáveis ou não, equivale a ficar debaixo de um pé de manga colhendo as frutas enquanto alguém, no alto do pé, sacode a árvore. Ficamos escolhendo entre as mangas boas e as estragadas e não consumimos as nossas forças porque não tivemos de subir na árvore.
O que isso significa? Significa que todos os objetos sensoriais que chegam até nós estão nos proporcionando sabedoria. Não precisamos adorná-los. Os oito ventos do mundo - lucro e perda, fama e má reputação, elogio e reprovação, dor e prazer - sopram por si. Se o seu coração desenvolveu tranquilidade e sabedoria, você se alegrará catando e escolhendo as mangas. O que outros podem chamar de bom e de mau, de aqui e de lá, de felicidade ou sofrimento, tudo concorre para o seu lucro, porque alguém subiu na árvore para sacudir as mangas e você não tem nada a temer.
Os oitos ventos do mundo são como mangas caindo para você. Use a sua concentração e a sua tranquilidade para entender, para coletar. Saber quais as frutas boas e quais as estragadas tem um nome: sabedoria, Vipassana. Você não inventou, nem criou. Onde há sabedoria, a percepção intuitiva surge naturalmente. Embora eu a chame de sabedoria, você não precisa dar-lhe um nome.

Achaan Chah em "Uma tranquila lagoa na floresta".

Deixe que a árvore cresça

Buda ensinou que, como as coisas que crescem por si, uma vez que você tenha feito o seu trabalho, pode confiar os resultados à Natureza, ao poder do seu karma acumulado. Apesar disso, o seu esforço não deve cessar. Pouco importa se o fruto da sabedoria cresce depressa ou devagar - você não pode apressá-lo, assim como não pode forçar o crescimento de uma árvore que você plantou. A árvore obedece o seu próprio ritmo. A sua função é cavar um buraco, regá-la, fertilizá-la e protegê-la das pragas. Esse é o seu trabalho: uma questão de fé. Porém, a maneira pela qual a árvore cresce é problema da árvore. Se você seguir essa prática , pode estar certo de que tudo correrá bem e de que a planta crescerá.

Sendo assim, você precisa compreender a diferença que existe entre o seu trabalho e o trabalho da árvore. Deixe o assunto da planta à plante, e responsibilize-se pelo seu. Se a mente não sabe o que deve saber, tentará fazer com que a árvore cresça, floresça e frutifique num dia. Esse enfoque está totalmente errado - é uma causa de imenso sofrimento. Apenas dedique-se à sua prática de maneira correta e deixe o resto por conta de seu karma. Então, se isso requerer uma, cem ou mil vidas, as sua prática se realizará em paz.


Achaan Chah em "Uma tranquila lagoa na floresta"

Compreendendo a raiva

Em todas as situações emocionais existe um sujeito, um objeto e uma ação. Por exemplo, andar de carro na Índia é uma experiência frustrante. As estradas são largas o suficiente apenas para um automóvel, e elas são cheias de buracos que causam solavancos. Quando estamos presos atrás de um caminhão lento que vomita fumaça de diesel - parece que todos eles fazem isso -, temos todas as razões para querer ultrapassar, mas isso raramente é possível. Ficamos obcecados com a estrada, o caminhão e nossa vontade, e depois de um tempo tudo o que podemos pensar é quanto estamos com raiva. Quando finalmente passamos, vemos que o motorista é apenas um pobre homem que luta para ganhar a vida. Nossa raiva diminui imediatamente.
Nessa situação, o sujeito é o eu, o objeto é o caminhão e ação é ter ficado atrás dele. A dor da situação é também o objeto. Estamos com raiva do caminhão por estar onde está e de nós mesmos por estarmos onde estamos. Também estamos com raiva por termos ficado presos no tráfego, e estamos com raiva por estarmos raivosos. Esses são os componentes desta emoção.

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".