Archive for Fevereiro 2010

Como lidar com os pensamentos negativos?

   Na maioria das vezes, nossos pensamentos surgem espontaneamente. Eles não pedem licença, simplesmente aparecem... Alegres, rancorosos, sensuais, raivosos - com todas as características possíveis ao ato de pensar. Às vezes, são raros e outras incansavelmente frequentes, como o pingar de uma torneira com defeito. O pensamento é apenas uma das inúmeras manifestações da nossa atividade mental. Assim como a respiração, a digestão, a circulação e tantas outras funções fisiológicas, o pensamento é uma atividade inerente à vida. Não ficamos chateados com as batidas do nosso coração, pelo contrário, ficamos felizes por elas acontecerem. Mas, diferentemente, às vezes, ficamos aborrecidos com os nossos pensamentos... Isso ocorre principalmente com aqueles negativos, como a raiva, o medo, o rancor, o ciúmes e tantos outros. Não é incomum nos reprendermos por esse padrão de pensamento, principalmente quando estamos trilhando algum caminho espiritual. Somos obrigados a encarar a existência das muitas "sementes negativas" que carregamos na nossa "consciência armazenadora". Mas, será que até mesmo o Buda conseguiu se ver livre do seu próprio "lixo mental"?
   As minhas dúvidas, obviamente sem respostas certas ou errradas, são:
1- É possível modificar o nosso padrão mental? Reduzir o bombardeio dos pensamentos negativos?
2- Como não se identificar com os pensamentos? Como dissociar o "ser" daquilo que é pensado?
   Todas as opiniões são muito bem vindas. 

Escrito por: simplesmente. 

Grão de areia

"Ver um mundo num grão de areia
 E um céu numa flor silvestre,
 Ter o Infinito na palma da sua mão
 E a Eternidade numa hora."

William Blake - (1757-1827).

A alma vestida!

 "O essencial é saber ver,
  Saber ver sem estar a pensar,
  Saber ver quando se vê,
  E nem pensar quando se vê
  Nem ver quando se pensa.
  Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
  Isso exige um estudo profundo,
  Uma aprendizagem de desaprender
  E uma sequestração na liberdade daquele convento
  De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
  E as flores as penitentes convictas de um só dia,
  Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
  Nem as flores senão flores,
  Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores."

  Alberto Caeiro.

Queixar-se...

   Queixar-se é uma das estratégias prediletas do ego para se fortalecer. Cada reclamação é uma pequena história que a mente cria e na qual acreditamos inteiramente. Não importa se ela é feita em voz alta ou apenas em pensamento. Alguns egos que talvez não tenham muito mais com o que se identificar sobrevivem apenas com queixas. Quando estamos presos a um ego assim, reclamar, sobretudo de alguém, é habitual e, é claro, inconsciente, o que mostra que não sabemos o que estamos fazendo. Uma atitude típica desse padrão é aplicar rótulos mentais negativos às pessoas, seja na frente delas ou, como é mais comum, falando sobre elas com alguém ou apenas pensando nelas. Xingar é o modo mais rude de atribuir esses rótulos e de mostrar a necessidade que o ego tem de estar certo e triunfar sobre os outros: "idiota", "desgraçado", "prostituta", todas essas afirmações sobre as quais não se pode argumentar. No nível seguinte, descendo pela escada da inconsciência, estão os gritos. Não muito abaixo disso se encontra a violência física. 
   Veja se você consegue capturar, ou melhor, perceber, a voz na sua cabeça - talvez no exato instante em que ela esteja reclamando de algo - e reconhecê-la pelo que ela é: a voz do ego, não mais que um padrão mental condicionado, um pensamento. Sempre que a observar, compreenderá que você não é ela, e sim aquele que tem consciência dela. Na verdade, você é a consciência que está consciente da voz. Atrás, em segundo plano, está a consciência. À frente, se situa a voz, aquele que pensa. Dessa maneira você estará se libertando do ego, livrando-se da mente não observada. No momento em que você se tornar consciente do ego, a rigor ele não será mais o ego, e sim um velho padrão mental condicionado. O ego implica em inconsciência. Ele e a consciência não podem coexistir. O velho padrão mental, ou hábito mental, pode sobreviver e se manifestar por um tempo porque tem o impulso de milhares de anos de inconsciência humana coletiva atrás de si. No entanto, toda vez que é reconhecido, ele se enfraquece. 

Eckhart Tolle em "Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência".       

Abraçando o medo

   Medo, preocupação e tensão costumam acompanhar o estresse. Mas essas emoções podem ser intensificadas por pensamentos a respeito do estresse. O medo tem a ver com fugir ou evitar situações ameaçadoras ou desconfortáveis. Mas as causas do medo podem estar em pensamentos como: "eu não tolero isso" ou "isso é assustador". A preocupação geralmente está ligada à revisão excessiva dos problemas, sem estar realmente conscientes deles. A tensão pode resultar em dificuldades secundárias como pressão alta ou doenças psicosomáticas. Não adicione emoções ao estresse. Em vez disso, procure usar o pensamento correto. Uma atitude mais positiva pode nos ajudar a combater o estresse. A coragem, como Ernest Hemingway costumava dizer, é a "graça sob pressão". O Budismo oferece um caminho positivo para pensarmos sobre nossa situação de vida. Por meio da meditação, podemos nos tornar conscientes dos processos momento a momento, e fazer o que for necessário para ficarmos relaxados. Cada experiência é completa. Embora não sejamos capazes de prever o que vai nos acontecer, podemos ficar completamente alertas e sintonizados com o aqui e agora. Então, descobriremos como encarar o estresse com maturidade. 

Meditando sobre o medo e o desconforto
Não tente evitar o estresse - abrace-o. Medite sobre o desconforto de sua situação estressante. Repare nos sentimentos e nas experiências do corpo -apertos no estômago ou respirações curtas. Aceite esses sentimentos como são: sensações. Observe como eles mudam a cada instante. Lembre-se de como cada experiência é transitória. Preste atenção nas distinções sobre o tempo. Você consegue reconhecer que o desconforto é uma série de experiências? Permaneça em sua consciência a cada momento. Pare de imaginar o futuro ou remoer o passado. O agora é a única realidade. Aprecie cada momento de cada experiência como único, sem precedentes. Entregue-se totalmente à sua situação estressante, sem esperanças nem desespero. Confie na completude e no vazio. 

Alexander e Annelen Simpkins em "Budismo no dia-a-dia". 

Do nirvana para a meditação.

   Com certa frequencia acabo sempre me vendo na mesma situação ao executar uma tarefa: a tentativa de chegar logo ao resultado. Provavelmente, isso parece ser o resultado de anos de uma educação sempre apontando a linha de chegada como o grande objetivo. Assim, para que lavar louças com mais calma ou andar mais devagar quando vamos para o trabalho? Afinal, o tempo não é tão precioso como sempre nos ensinaram? Aí, talvez, resida um dos maiores paradoxos da nossa vida. Ao procurarmos "ganhar tempo" no nosso dia-a-dia, acabamos por perder a vida... Isso mesmo, perdemos a vida porque ela ocorre exatamente nos inúmeros detalhes que passam despercebidos quando estamos com pressa e desatentos. Podem ser borboletas bailando em pleno ar, crianças brincando numa praça ou o sorriso dos nossos filhos. Simplesmente perdemos a vida porque ela acontece justamente nesses momentos, e não na linha de chegada.Tal qual numa viagem, a estrada deve ser apreciada, e não somente o destino final. A vida acontece sempre nas entrelinhas de uma estória, e não no capítulo final. Além disso, tenho certeza de que aqueles que andam mais devagar podem não chegar primeiro, mas com certeza chegam muito melhor. Assim, vamos mudar o nosso objetivo, do resultado para o caminho, do nirvana para a meditação. 

Escrito por: simplemente.     

Onde começam o amor e a tolerância?

   "Que eu possa aprender a me olhar com olhos de compreensão e amor." Novamente, começamos a partir de nós para entendermos nossa verdadeira natureza. Enquanto nos rejeitamos, enquanto continuamos a ferir o nosso próprio corpo e nossa mente, não faz sentido falarmos em amar e aceitar os outros. Com atenção plena, poderemos reconhecer a maneira como habitualmente pensamos e quais os conteúdos dos nossos pensamentos. Às vezes, eles dão voltas em todas as direções, e somos tragados por desconfiança, pessimismo, conflitos, tristeza ou ciúme. Sempre que a mente se encontra assim, nossas palavras e ações manifestam naturalmente essas características e causamos mágoa a nós mesmos e aos outros. Praticar é fazer jorrar a luz da atenção plena sobre nossos habituais padrões de pensamento e assim podermos vê-los claramente. Quando um pensamento surge, temos que reconhecê-lo e sorrir para ele. Isso poderá ser o suficiente para que ele cesse. A atenção mental adequada nos traz a felicidade, paz, clareza e amor. A atenção mental inadequada nos enche de tristeza, raiva e preconceito. A consciência plena nos ajuda a praticar a atenção mental adequada e regar as sementes de paz, alegria e liberdade que existem em nós. 

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor". 

Três perguntas básicas...

   Naikan é a arte japonesa da autorreflexão. Foi criada por Yoshi Yamamato (1906-1988) utilizando os princípios do Budismo Terra Pura. Procura quebrar a avaliação egocêntrica da vida e desenvolver outra percepção com relação a tudo que nos rodeia. A prática do naikan começa apenas com três perguntas básicas:
  • O que recebi das pessoas na minha vida?
  • O que dei a elas em retorno?
  • Que tipo de problemas ou dificuldades criei para elas?
   Portanto, o naikan é uma contabilização objetiva e prática das relações: o que dei, o que eu ganhei e o que eu causei. O resultado dessa contabilidade é inevitável: gratidão.  

Liane Alves em vida simples, fevereiro de 2010. 
  

Sou uma continuação do Buda: o segundo toque na terra.

   Com gratidão, faço uma reverência a todas as gerações de ancestrais da minha família espiritual. Vejo em mim o meu mestre, aquele que me aponta o caminho do amor e da compreensão, a maneira correta de respirar, sorrir, perdoar e viver intensamente no momento presente. Por meio dele vejo todos os mestres de muitas gerações, todos os bodhisattvas e o Buda Shakyamuni, aquele que iniciou minha família espiritual há 2.600 anos. Vejo o Buda como meu mestre e também como meu antepassado espiritual. Percebo que a energia dele e a de muitas gerações de mestres penetraram em mim criando paz, alegria, compreensão e bondade amorosa. Sei que a energia do Buda operou uma profunda transformação no mundo. Sem o Buda e todos esses antepassados espirituais, eu não teria aprendido a praticar com a intenção de estabelecer a paz e a felicidade na minha vida, na vida da minha família e na sociedade. Abro meu coração e meu corpo para receber a energia da compreensão, a bondade amorosa e a proteção do Buda, do dharma e da sangha por muitas gerações. Sou uma continuação do Buda, do dharma e da sangha. Peço a esses antepassados espirituais que me transmitam a infinita fonte de energia, paz, estabilidade, compreensão e amor. Comprometo-me a praticar para transformar o sofrimento em mim e no mundo e transmitir essa energia para futuras gerações de praticantes.        

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".

Pergunte ao cavalo

   Existe uma história zen sobre um homem e um cavalo. O cavalo está galopando rapidamente, e parece que o homem que cavalga se dirige a algum lugar importante. Outro homem, em pé ao lado da estrada, grita: "Aonde você está indo?" e o homem a cavalo responde: "Não sei. Pergunte ao cavalo!" Esta é a nossa história. Estamos todos sobre um cavalo, não sabemos aonde vamos e não conseguimos parar. O cavalo é a força de nossos hábitos que nos puxa, e somos impotentes diante dela. Estamos sempre correndo, e isso já se tornou um hábito. Estamos acostumados a lutar o tempo todo, até mesmo durante o sono. Estamos em guerra com nós mesmos, e é fácil declarar guerra aos outros também.

Thich Nhat Hanh em "A essência dos ensinamentos budistas".

O conceito chamado "eu"

   A força de repousar na paz está em que começamos a ver como a mente funciona. Também começamos a ver como funciona a vida. Isso nos modifica. No início, quando começamos a praticar, talvez sentíssemos como se os pensamentos e as emoções fossem sólidos. A mente era fraca. Os pensamentos e as emoções pareciam devastadores. Vemos agora que são como uma névoa que se levanta da água. Percebemos os pensamentos como poderosos porque acreditamos neles, tanto mais que neles baseamos toda a nossa vida. Como nos vestimos, o que comemos, onde moramos e tudo mais é produto do que pensamos. O que estávamos pensando quando compramos isso? O que estávamos pensando quando fizemos aquilo? Começamos a ver como a crença na solidez dos pensamentos criou esse conceito chamado "eu". Vemos que nos fundamentos do nosso ser está algo mais profundo e mais aberto do que fantasias, as emoções e os pensamentos discursivos. 

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".  

Preservando a paz de espírito

   A paciência protege e impede que nos sintamos desencorajados quando os outros nos fazem mal. Protege-nos igualmente de situações nas quais nossa cólera poderia destruir o conjunto de nossas virtudes. É um ornamento admirado pelos outros; é a armadura que nos protege contra a nossa própria cólera e de todo mal infligido pelos outros. Praticar a paciência é a maneira mais eficaz de preservar a paz de espírito. 

S.S. Dalai Lama em "Princípios de vida".

Conecte-se com o seu corpo interior

   Dirija a atenção para dentro do seu corpo. Sinta-o lá no fundo. Está vivo? Há vida nas suas mãos, braços, pernas e pés, em seu abdômen, no seu peito? Você consegue sentir o campo de energia sutil impregnando todo o seu corpo e fazendo palpitar cada órgão e cada célula? Percebe o que está acontecendo em todas as partes do seu corpo, como se fosse um só campo de energia? Mantenha o foco, por um momento, sobre a sensação que passa pelo seu corpo interior. Não comece a pensar sobre ela. Sinta-a. Quanto mais atenção você der a sensação, mais clara e forte ela ficará. 

Eckhart Tolle em "Praticando o poder do agora".

Vivenciando a consciência pura

   Para se tornar consciente do Ser, você precisa ter de volta a consciência aprisionada pela mente. Essa é uma das tarefas mais essenciais na sua jornada espiritual. Ela vai libertar grandes porções de consciência que antes estavam presas nos pensamentos inúteis e compulsivos. Uma forma muito eficaz de realizar essa tarefa é desviar o foco da atenção do pensamento e dirigi-lo para o interior do seu corpo, onde o Ser pode ser percebido, numa primeira etapa, como o campo de energia invisível que dá vida àquilo que você entende como o seu corpo físico.  

Eckhart Tolle em "Praticando o poder do agora".