Archive for Abril 2010

O mérito.

   A motivação amplia-se ainda mais quando começamos a pensar em como nossos atos presentes podem nos afetar depois da morte. Essa motivação maior provém da percepção da vasta interligação de causa e efeito, e do fato de nossas atividades atuais afetarem diretamente o que acontecerá conosco no futuro. Com essa motivação, praticamos os ensinamentos espirituais para nos assegurar de uma pós-vida ou um renascimento favorável, dependendo de nossas crenças. Nas culturas budistas tradicionais, as pessoas são motivadas pelo desejo de acumular méritos. O mérito é como uma série de reações em cadeia entre peças de dominó, que possibilita resultados positivos nesta vida e em vidas futuras.

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".

As chaves para o sucesso...

"Determinação, coragem, auto-confiança são as chaves para o sucesso. Em todas as circunstâncias devemos permanecer humildes, modestos e sem orgulho."

S.S. Dalai Lama.

A maratona dos 100%.

   No último primeiro de abril, Thay distribuiu aos monásticos e aos praticantes leigos de Plum Village uma pequena lembrança: um cartão com sua assinatura e a inscrição 100%. O que Thay pretendia sugerir com esse singelo, porém interessante, presente? Nosso amado mestre nos lembra da importância de estarmos 100% presentes em tudo o que fazemos. Muitos de nós temos dificuldades em estar totalmente presente nas nossas atividades, principalmente por estarmos atribulados com os nossos problemas (mesmo sabendo que essa atitude não produzirá nenhuma solução). Devemos refletir, no entanto, o quanto perdemos ao não trilhar o caminho da plena consciência... Perdemos os sorrisos dos nossos filhos, o carinho dos amigos, um por-do-sol, o alegre cantar dos pássaros, uma saborosa sobremesa e muito mais... Perdemos por estarmos presentes somente no plano físico, deixando a beleza da vida se esvair por entre o espaço dos segundos. Por gentileza, pare de ler esse texto por um minuto... Sinta os seus pés, olhe ao seu redor, permita-se sentir o toque do ar durante uma inspiração. Pare, sinta o momento presente... 100% presente, você está vivo e presente no aqui e agora. Agora tente fazer isso durante o seu dia, mesmo quando ele for extremamente atribulado. Transforme cada contato, cada ato em pura presença e sinta a simples magia de estar vivo. Você não precisa de mais nada, somente disso: 100% de presença. Algumas vezes, tentamos praticar de maneira intensa e desejamos resultados rápidos. Assim como uma maratona, devemos nos preparar com corridas pequenas durante vários dias para podermos ter o condicionamento físico suficiente. Precisamos estar presentes em momentos simples, mas que consideramos banais, como lavar pratos, por exemplo. De tal forma, que possamos nos preparar gradativamente para a maratona dos 100%.

Escrito por simplesmente.

Rara oportunidade...

   Em termos gerais, o altruísmo é a fonte genuína de benefício e felicidade. Portanto, se tivéssemos nascido em uma esfera da existência onde o seu desenvolvimento não fosse possível, estaríamos em uma situação sem esperança, o que felizmente não é o caso. Como seres humanos, temos as faculdades apropriadas para o desenvolvimento espiritual, dentre as quais a mais preciosa é o cérebro humano. É muito importante não desperdiçarmos a grande oportunidade que nos é oferecida por nossa condição de seres humanos, pois o tempo é um fenômeno momentâneo e inesperado. É da natureza das coisas que elas sigam um processo de mudança e desintegração. Por isso, é de extrema importância darmos significado a nossas vidas.

S.S. Dalai Lama em "O livro da felicidade".  

Um hotel de cinco mil estrelas...

   Os ensinamentos do Buda sobre o amor são claros. É possível vivermos 24 horas por dia em estado de amor. Cada movimento, olhar, pensamento e palavra pode ser impregnado de amor. As quatro mentes incomensuráveis são concentrações (samadhi) poderosas: a concentração do amor, a concentração da alegria, a concentração da compaixão e a concentração da equanimidade. Se nos mantivermos permanentemente nessas quatro concentrações, estaremos vivendo no mais belo, pacífico e alegre reino do universo. Se alguém nos pedir nosso endereço, poderemos dizer "vivo nas moradas de Brahma" - as mentes incomensuráveis do amor, compaixão, alegria e equanimidade. Existem hotéis cinco estrelas em que o hóspede paga muito caro por noite; no entanto, a morada de Brahma oferece mais felicidade. É um hotel cinco mil estrelas, um lugar onde aprendemos a amar e sermos amados. 

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".     

A equanimidade.

   O quarto elemento do amor verdadeiro é upeskha, que significa equanimidade, desapego, não-discriminação, mente serena, ou despreocupação. Upa que dizer "de cima", e iksh, "olhar". Escalamos a montanha para podermos ver lá de cima a situação toda, sem pendermos nem para um lado nem para outro. Se o seu amor tem apego, discriminação ou preconceito, ele não é o amor verdadeiro. As pessoas que não conhecem o budismo às vezes pensam que upeksha corresponde à indiferença. Quando temos mais de um filho, todos são nossos filhos. Upeksha não significa que não amamos. Amamos de uma maneira que todos os nossos filhos recebem nosso amor, sem discriminação.
   Upeksha tem o sinal chamado samatajñanna, "a sabedoria da igualdade", a capacidade de vermos que todas as pessoas são iguais, sem discriminar entre nós e os outros, Quando existe um conflito, muito embora estejamos profundamente envolvidos, permanecemos imparciais, capazes de amar e compreender ambos os lados. Eliminamos completamente a discriminação e o preconceito e removemos todas as fronteiras entre nós e as outras pessoas. Enquanto cada um de nós enxergar a si mesmo como aquele que ama e vir os outro como o amado, enquanto der mais valor a si próprio do que aos demais ou se considerar diferente das pessoas, não terá desenvolvido a equanimidade verdadeira. Temos que nos colocar "na pele do outro" e nos tornar um com ele se quisermos compreendê-lo e amá-lo de verdade. Quando isso acontece, não existe o "eu" nem o "outro". 

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".     

A origem do sofrimento.

   Quando contemplamos a impermanência, a doença, a velhice e a morte - e todos os outros aspectos de nosso precioso nascimento humano -, percebemos como temos uma fixação, como temos sido determinados e obstinados em nossa versão da realidade. É claro que essa fixação nos causa sofrimento e dor: quanto mais envolvidos estamos com nós mesmos, mais temos raiva, inveja e outras emoções traumáticas. Quanto mais procuramos a satisfação própria, com mais sofrimento terminamos, do menos ao mais extremo. Em todos os casos, o sofrimento resulta de algum tipo de intenção egoísta. Damo-nos conta de que temos agido dessa forma porque considerávamos que nossas emoções, nossos conceitos e nossos pensamentos eram reais. A meditação mostra que essas emoções são fundamentalmente ilusórias e vazias. Sentados, passamos horas contrariados, ansiosos, e ao final é como se tudo fosse um sonho. Fica claro para nós que esse simples mal-entendido trabalha contra nossa felicidade e nosso bem-estar.

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada". 

P.S.: por gentileza, olhe fixamente para o centro da figura acima e veja como é fácil se iludir.   

Montando na energia da bondade fundamental.

   Experimentamos a bondade fundamental quando relaxamos profundamente em como as coisas são, sem desejar mudá-las. A partir desse estado sutil, o bodhichitta flui com naturalidade. Essa é a mente da iluminação. Nós nos aliamos a ela quando usamos a meditação para dissolver a ilusão do eu. Podemos agora confiar na energia da mente tal como podemos confiar na energia de um cavalo. O espírito majestoso da nossa mente-cavalo selvagem foi domado e concentrado no cavalo-vento, a energia primordial da bondade fundamental. Nossa prática consiste agora em cavalgá-la.
   Nós a chamamos de cavalo-vento porque sua natureza é elevada, forte, exuberante e brilhante. Ele corre a galope e sua crina é agitada pelo vento. Quando visitei o Tibete, vi o cavalo-de-vento na maneira de montar dos guerreiros que usavam trajes como os do rei Gesar, o herói épico do Tibete. Fazer da mente uma aliada dá-nos o poder de cavalgar o radiante cavalo-de-vento, em qualquer situação. Montar a energia da bondade fundamental é como cavalgar os raios de um sol que está sempre nascendo. Na tradição budista Shambala, chamamos isso de Sol do Grande Leste. Tudo o que encontramos resplandece com a dignidade e o esplendor da bondade fundamental, e vemos um mundo sagrado. Com essa visão, começamos a deitar os alicerces de uma sociedade iluminada.
   Como vivemos a partir da base imaculada e pura da bondade fundamental? Como geramos a cada encontro um coração compassivo? Como plantamos a flor do bodhichitta na rocha da idade das trevas? O modo mais rápido e prático de fazer isso é afrouxar o controle sobre nós mesmos. É então que o cavalo-de-vento se faz mais acessível. Sempre volto a uma de minhas frase favoritas: "Se quiser sentir-se desgraçado, pense em si mesmo. Se quiser ser feliz, pense nos outros". É assim que fazemos com que a mente iluminada desça e retorne à realidade. 

Sakyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".     

O apego.

   A percepção de "eu" como algo separado dos "outros" é, como já discutido, um mecanismo essencialmente biológico - um padrão estabelecido de tagarelice neuronal que sinaliza a outras partes do sistema nervoso que cada um de nós é uma criatura distinta e independentemente existente que precisa de certos fatores para perpetuar sua existência. Como vivemos em corpos físicos, algumas dessas coisas das quais precisamos, como oxigênio, comida e água, são realmente indispensáveis. Além disso, estudos sobre a sobrevivência de bêbes, sobre os quais a pessoas me falaram, têm mostrado que a sobrevivência requer certo nível de cuidados físicos. Precisamos ser tocados, precisamos que falem conosco, precisamos que o simples fato de nossa existência seja reconhecido. 
   Os problemas começam, entretanto, qaundo generalizamos biologicamente os fatores essenciais para áreas que não têm nada a ver com a sobrevivência básica. Em termos budistas, essa generalização é conhecida como "apego" ou "desejo" - que, a exemplo da ignorância, pode ser vista em termos puramente neurológicos. 
   Quando vivenciamos algo como o chocolate, por exemplo, como agradável, estabelecemos uma conexão neuronal que vincula o chocolate à sensação física de prazer. Isso não significa que o chocolate em si seja algo bom ou ruim. Há diversas substâncias químicas no chocolate que geram uma sensação física de prazer. É o nosso apego neuronal ao chocolate que cria problemas.
   De muitas formas, o apego é comparável a um vício, uma dependência compulsiva de objetos externos ou de experiências para criar uma ilusão de completude. Infelizmente, como outros vícios, o apego se intensifica com o tempo. Qualquer satisfação que possamos vivenciar quando conseguimos algo ou alguém que desejamos não é duradoura. Qualquer coisa ou pessoa que nos faça feliz hoje, neste mês ou neste ano é obrigada a mudar. A mudança é a única constante realidade relativa.
   O Buda comparava o apego a beber água salgada de um oceano. Quanto mais bebemos, mais sede temos. 

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".  

As quatro mentes incomensuráveis.

   A felicidade só é possível com o amor verdadeiro. Ele tem o poder de remediar e transformar a situação ao nosso redor e dar um profundo significado à nossa vida. Existem pessoas que conhecem a natureza do amor verdadeiro e sabem como gerá-lo e nutri-lo. OS ensinamentos do Buda sobre o amor são claros, científicos e aplicáveis. Todos nós podemos nos beneficiar deles.
  No tempo do Buda, os brâmananes rezavam pedindo que depois da morte pudessem ir para o céu e viver eternamente com Brahma, o Deus universal. Um dia, um brâmane perguntou ao Buda:
   - O que posso fazer para ter certeza de que estarei com Brahma depois que morrer?
   - Como Brahma é a fonte do amor, para morar com ele você deve praticar as brahmaviharas: amor, compaixão, alegria e equanimidade - o Buda respondeu. 
   Vihara é a habitação, ou lugar para morar. Em sânscrito, amor é maitri; em pali, é metta. Compaixão é karuna nos dois idiomas. Alegria é mudita. Equanimidade é upeksha em sânscrito e upekkha em pali. Os brahmaviharas são os quatro elementos do amor verdadeiro. São chamados "incomensuráveis" porque à medida que os praticamos eles vão crescendo dentro de nós até abraçarem o mundo inteiro. Nós nos tornaremos mais felizes, e o mesmo acontece com as pessoas que nos rodeiam. 
   Como o Buda respeitava a vontade das pessoas de seguirem a sua própria fé, ele respondeu à pergunta do brâmane encorajando-o a agir assim. Quem gosta de meditação sentada deve praticar a meditação sentada. Os que preferem a meditação andando devem optar por essa modalidade. Mas a pessoa tem que preservar suas raízes judaicas, cristãs ou mulçumanas. Essa é a maneira de seguir o espírito de Buda. Quem é arrancado das suas raízes não consegue ser feliz. 

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".       

Agradecendo...

   A gentileza não está limitada aos nossos inimigos e aos nossos parentes; ela diz respeito a todos os seres sensíveis. Mesmo quando não são nossos parentes, todos os seres sensíveis concorrem direta ou indiretamente para o nosso bem-estar. O que comemos, nossas roupas, nossa casa e, além disso, tudo o que apreciamos nesta vida só se tornaram possíveis para nós pela gentileza dos seres sensíveis. Nosso próprio nascimento é fruto da gentileza de nossos pais.  

S.S. Dalai Lama em "Princípios de vida". 

A essência do dharma.

   Geralmente descrevo a essência do dharma em duas frases: se puderes, ajuda os outros, serve-os; se não puderes, evita pelo menos prejudicá-los. O tema básico do ensinamento Theravada é alcançar a própria libertação. Evidentemente, a compaixão (karuna) tem seu papel a desempenhar, embora isso não seja obrigatório. A meta é realizar a própria libertação por meio do serviço aos outros. O princípio fundamental é: não prejudique os outros. No Mahayana, a ênfase é colocada no altruísmo ou bodhicitta (que é o desejo de realizar a budeidade com a intenção de servir ou de ajudar outros seres sensíveis). Esse estado de espírito budista é ao mesmo tempo a mensagem fundamental e o que constitui o treinamento principal. Em consequência, a maior compaixão (Mahakaruna) é obrigatória. É a fonte de altruísmo. Pouco importa o que te aconteça: deves ajudar e servir os outros. 

S.S. Dalai Lama em "Princípios da vida".    

A prática do tonglen: gerando compaixão.

   Há uma prática de meditação específica que pode ajudar a gerar bondade amorosa e compaixão imensuráveis. Em tibetano, essa prática é chamada de tonglen, que pode ser traduzida como "enviar e pegar".
   O tonglen é, na verdade, uma prática bastante fácil, exigindo apenas uma simples coordenação de imaginação e respiração. O primeiro passo se resume a reconhecer que, por mais que você queira obter a felicidade e evitar o sofrimento, outros seres também se sentem da mesma forma. Não há necessidade de visualizar seres específicos, apesar de você poder começar com uma visualização específica se considerar útil. Mais cedo ou mais tarde, entretanto, a prática de pegar e enviar se estende além daqueles que você pode imaginar para incluir todos os seres sencientes - incluindo animais, insetos e habitantes de dimensões que você desconhece ou não tem como ver.
   O propósito conforme me ensinaram, é lembrar que o universo está repleto de um número infinito de seres e pensar: "Da mesma forma como quero a felicidade, todos os seres querem a felicidade. Da mesma forma como quero evitar o sofrimento, todos os seres querem evitar o sofrimento. Sou só uma pessoa, enquanto o número de outros seres é infinito. O bem-estar desse número infinito é mais importante do que o de um." E, à medida que você permite que esses pensamentos rolem em sua mente, começa a se ver ativamente envolvido em desejar que os outros se libertem do sofrimento.   

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".

O estado natural da conscientização.

   Uma das metáforas que os tibetanos utilizam para a técnica da prática "sem distração e sem apego" é a de um avô sem pressa num parque olhando para as crianças dos outros brincarem. As mães protegem seus filhos. O avô observa atentamente, mas não interfere. Não intervir, enquanto observa vigilante, é o ponto crucial da prática. Uma excelente palavra para esta qualidade da conscientização é "limpidez". A limpidez possui uma conotação dual de completa transparência, como o ar ou o vidro, e também luminosidade e brilho. A limpidez descreve uma poça de água no deserto que emerge de uma fonte de areia fina, o sol radiante brilhando na água. A poça é límpida, completamente transparente e luminosa. Tudo que aparece na água, até uma partícula de poeira, fica radiantemente iluminado. Essa é a característica que define o estado natural da conscientização - ela é límpida, clara e luminosa e, como o próprio espaço, nem um pouco pegajosa. 

B. Alan Wallace em "Budismo com atitude".