Archive for Outubro 2010

Ioga da boca.

   O próximo exercício é "Sorrir, liberar. Ao inalar, eu sorrio; ao soltar o ar eu relaxo. Ao inalar, sorrio para o meu corpo; ao soltar o ar, acalmo o meu corpo. Ao inalar, sorrio para os meus sentimentos; ao soltar o ar, acalmo os meus sentimentos. Sorrir, liberar." Sorrir é uma prática eficaz. Você não precisa se sentir plenamente feliz para poder sorrir, porque sorrir é uma prática iogue. Você pratica a ioga da boca. Mesmo que não esteja alegre, sorrir o ajuda a relaxar os músculos do rosto, quando está zangado ou com medo, esses músculos ficam tensos. Se olhar para o espelho nesse momento, conseguirá enxergar a tensão no seu rosto. Entretanto, se souber como respirar e sorrir, a tensão logo desaparecerá e você sentirá bem melhor. Você pode ajudar uma pessoa tensa sorrindo para ela, o que fará com que ela se sinta melhor. "Ao inalar eu sorrio. Ao soltar o ar, abandono a tensão."

Thich Nhat Hanh em "A arte do poder". 

Somos a nossa mente?

   Os problemas da mente não podem ser solucionados no nível da mente. No momento em que compreendemos que não somos a nossa mente, não existe muito mais a aprender ou compreender. O máximo que podemos conseguir ao estudar a mente é nos tornarmos bons psicólogos, mas isso não nos levará além da mente, do mesmo modo que estudar a loucura não basta para criar a sanidade. Já entendemos a mecânica básica do estado de inconsciência, ou seja, quando nos identificamos com a mente geramos um falso eu interior, o ego, que é um substituto do nosso verdadeiro eu interior enraizado no Ser. Passamos a ser "um ramo cortado da videira", como Jesus pregou.
   As necessidades do ego são intermináveis. Ele se sente vulnerável e ameaçado e, em consequência, vive em um estado de medo e carência. Quando entendemos esse funcionamento anormal da mente, não precisamos examinar todas as suas numerosas manifestações, nem transformá-lo em um problema pessoal complexo. O ego, é claro, adora fazer isso. Está sempre buscando algo em que se apegar para sustentar e fortalecer a ilusão que tem de si mesmo e para juntar aos seus problemas. Essa é a razão pela qual, para muitos de nós, o sentido do eu interior está intimamente ligado aos nossos problemas. Quando isso acontece, a última coisa que desejamos é nos livrar deles, porque isso significaria a perda do eu interior. Por isso, pode existir uma grande parte de investimento inconsciente do ego em mágoa e sofrimento.
   Portanto, se reconhecermos que a raiz da inconsciência vem de uma identificação com a mente, o que naturalmente inclui as emoções, estaremos dando um passo para nos livrar da mente. Ficamos presentes. Quando estamos presentes, podemos permitir que a mente seja como é, sem nos deixar enreidar por ela. A mente em si é uma ferramenta maravilhosa. O mal funcionamento acontece quando buscamos o nosso eu interior dentro dela e confundimos com quem somos. É nesse momento que a mente se torna egóica e domina toda a nossa vida.

Eckhart Tolle em "O poder do agora".       

Meditação sobre o amor altruísta.

   Imaginemos uma criança que se aproxima de nós e nos olha feliz, confiante e cheia de inocência. Acariciamos sua cabeça contemplando-a com ternura e a pegamos no colo, enquanto sentimos um amor e benevolência incondicionais. Deixemos nos impregnar desse amor que só quer o bem dessa criança. Permaneçamos por alguns instantes na consciência plena desse amor, sem nenhum outro pensamento. 
   Podemos também escolher qualquer outra pessoa pela qual temos grande ternura e um profundo reconhecimento, nossa mãe, por exemplo. Desejamos com toda nossa força que ela encontre a felicidade e as causa da felicidade, depois estendamos esse pensamento a todos que nos são próximos, depois àqueles que conhecemos menos, em seguida, progressivamente, a todos os seres. Enfim, desejamos o mesmo a nossos inimigos pessoais e aos inimigos de toda a humanidade. Neste último caso, não quer dizer, evidentemente, que lhes desejamos sucesso em seus projetos funestos. Desejemos que eles abandonem seu ódio, sua crueldade ou sua indiferença, e que a benevolência e a preocupação com a felicidade do outro nasçam em sua mente. Quanto mais grave é a doença, mais o doente precisa de cuidados, de atenção e de boa vontade.
   Abracemos assim a totalidade dos seres num sentimento de amor ilimitado.

Matthieu Ricard em "A arte de meditar". 

O segredo.

   É necessário aprender a arte de semear a felicidade. Se durante nossa infância vimos nossa mãe ou nosso pai fazendo coisas que proporcionaram felicidade à família, já sabemos como agir. No entanto, se nossos pais não souberam cultivar a felicidade, é possível que agora não saibamos como proceder. Assim, na comunidade de prática, procuramos aprender a arte de fazer as pessoas felizes. O problema não é estarmos certos ou errados, mais sermos mais ou menos habilidosos. Viver com alguém é uma arte. Mesmo com bastante boa vontade, ainda podemos fazer a outra pessoa muito infeliz. Boa vontade não é o suficiente. Necessitamos dominar a arte de fazê-la feliz. A arte é a essência da vida. Devemos procurar ser habilidosos ao falar e agir.  A substância da arte é a atenção plena. Vivendo com atenção plena, sabemos viver com mais arte. Isso foi uma coisa que aprendi com a prática.

Thich Nhat Hanh em "Ensinamentos sobre o amor".

O esforço vale a pena!

   Para nos interessarmos por alguma coisa e dedicar-lhe algum tempo, é preciso primeiramente perceber suas vantagens. O fato de refletirmos sobre os benefícios esperados da meditação, de tê-los experimentado um pouco alimentará nossa perseverança. Contudo, isso não quer dizer que a meditação seja um exercício sempre agradável. Podemos compará-la a uma excursão na montanha, que não é prazerosa o tempo todo. O essencial é ter um interesse suficientemente profundo para manter o esforço, apesar dos altos e baixos da prática espiritual. A satisfação de progredir em direção ao objetivo fixado é suficiente para manter a determinação e a convicção de que o esforço vale a pena.

Matthieu Ricard em "A arte de meditar".

Continuidade na prática.

   É essencial manter a continuidade da meditação, dia após dia, pois é assim que ela ganha, pouco a pouco, em amplitude e estabilidade, como um filete de água que se transforma em riacho e depois em rio.
   Lê-se nos textos que é melhor meditar regularmente, e de forma repetida, durante curtos períodos de tempo do que fazer longas sessões de vez em quando. Podemos, por exemplo, dedicar vinte minutos todo o dia à meditação e aproveitar pausas em nossas atividade para reavivar, por alguns minutos, a experiência adquirida durante nossa prática formal. Esses curtos períodos terão mais chance de ser de boa qualidade e manterão um sentimento de continuidade em nossa prática.
   Para que uma planta cresça bem, temos de regá-la um pouco diariamente. se nos contentarmos em derramar sobre ela um grande balde de água uma vez por mês, ela morrerá provavelmente pela seca entre duas regaduras. O mesmos acontece com a meditação. Isso não quer dizer que não possamos consagrar à meditação mais tempo, às vezes. 

Matthieu Ricard em "A arte de meditar". 

O que é a felicidade?

  "Pouco a pouco, eu começava a reconhecer a fragilidade e o caráter efêmero dos pensamentos e das emoções que me haviam perturbado durante anos, e compreendia como, fixando-me nos pequenos aborrecimentos, eu os havia transformado em enormes problemas. Pelo simples fato de ficar assentado observando a que velocidade e, sob muitos aspectos, com que ilogismo meus pensamentos e minhas emoções iam e vinham, comecei a ver diretamente que eles não eram tão sólidos e reais quanto pareciam. Depois, logo que comecei a abandonar a minha crença na história que eles pareciam me contar, percebi, pouco a pouco, o 'autor' que se escondia por trás deles: a consciência infinitamente vasta, infinitamente aberta, que é a própria natureza da mente.
   Toda tentativa de descrever com palavras a experiência direta da natureza da mente é destinada ao fracasso. Tudo o que se pode dizer é que se trata de uma experiência infinitamente pacífica e, uma vez estabilizada por uma prática constante, é quase inabalável. É uma experiência de bem-estar absoluto que impregna todos os estados físicos e mentais, até mesmo aqueles que são normalmente considerados desagradáveis. Esse sentimento de bem-estar, independentemente das flutuações das sensações vindas do interior ou do exterior, é uma das maneiras mais claras de compreender o que o budismo entende por 'felicidade'."   

Yongey Mingyur Rinpoche.

O amor altruísta...

"Possa eu ser o protetor dos seres sem proteção
 E o guia daqueles que estão na estrada,
 A balsa, o navio e a ponte daqueles que querem chegar à outra margem!
 Possa eu ser uma ilha para os que procuram uma ilha,
 Uma lâmpada para os que querem a luz,
 Um abrigo para os que querem um abrigo
 E um servo de todos que procuram um servo!
 Possa eu ser para todos o cristal mágico, o jarro de água encantado,
 A fórmula de ciência e a panacéia,
 A árvore que engloba todos os desejos
 E a vaca de teta inesgotável!
 Como a terra e os outros elementos,
 Possa eu continuar, na escala do espaço,
 A ser a fonte que supre as múltiplas necessidades
 Da multidão insondável dos seres!
 Possa eu assim prover as necessidades dos seres
 Até o fim do espaço, em todo o lugar, em todo tempo,
 Até que todos atinjam o nirvana!"

Shantideva.

Tocando em frente...

"Ando devagar por que já tive pressa
E levo esse sorriso por que já chorei demais.
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Nada sei.

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou.

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz."

"Tocando em frente" (Almir Sater e Renato Teixeira).

Sem desculpas...

   Qual o significado da existência humana dotada de tempo e fortuna? Tempo disponível se refere a ter tempo livre, da mesma forma que a palavra é usada para perguntar se alguém tem ou não tempo para fazer isso ou aquilo. Por isso, este termo refere-se à existência humana, que tem tempo disponível para empreender a prática.
   Outras formas de existência não têm a chance de pensar sobre o dharma, pois estão sob forte influência da ignorância. Comparando-nos a elas, somos seres amplamente dotados de tempo e capacidade de praticá-lo.
   Portanto, como disseram os mestres, se renascêssemos em reinos inferiores, embora nesses lugares possa existir a doutrina dos budas e os ensinamentos do tantra, não nos beneficiaríamos muito. Embora você possa assumir formas de existência favoráveis em reinos deva, e assim por diante, uma vez que a prática do dharma tem que ser empreendida com base no aprimoramento da mente e que em tais reinos ela está sob forte influência, você não teria a oportunidade que tem aqui. Mas este não é o seu caso.
   Além disso, você não renasceu em uma época em que seja impossível se beneficiar da doutrina do Buda. Ao contrário, ela está ativa e é muito relevante. Mas mesmo tendo renascido na época atual, se tivesse renascido em um país onde o dharma fosse totalmente inacessível, você não tiraria proveito da sua existência humana. Mas este tampouco é o seu caso.
   No entanto, mesmo nascendo em um país ou comunidade onde o dharma está disponível, você pode perder as capacidades físicas e mentais e não estar apto a se beneficiar dele. Esse não é o caso e você também não está sob a influência de visões errôneas, como a total negação da possibilidade de renascimento ou de sua autenticidade. Cultivando ou não profunda convicção, você tem alguma compreensão do dharma, que é suficientemente poderoso para persuadi-lo a se interessar por ele.
   Por isso, na atual conjuntura, provavelmente descobrirá que está livre das condições adversas mais óbvias para a prática e que está equipado com condições favoráveis.

S.S. Dalai Lama em "O livro da felicidade. Um guia prático aos estágios de meditação".  

Montando no cavalo da liberação.

   Cada vez que decidir reconhecer um pensamento, dar-se conta dele e voltar a consciência à respiração, você estará aprendendo a colocação. Um ato tão pequeno, tão inofensivo, é uma das coisas mais corajosas que você pode fazer. Quando reconhecer e liberar aquele pensamento, você poderá se orgulhar de si mesmo. Você terá vencido a preguiça. Você se lembrou das instruções. Poderá se sentir feliz ao retornar à respiração. Não se preocupe com o fato de que terá de fazer isso novamente - você fará milhares de vezes. É por isso que chamamos de prática.
   Cada vez que nos lembramos de colocar a mente sobre a respiração, estamos avançando. Simplesmente por deixar que um pensamento se vá, nos afastamos de conceitos, das emoções negativas e do aturdimento. Deixamos a necessidade de ser interminavelmente entretidos e consumidos. Devemos fazer isso repetidas vezes, muitas vezes. A mudança ocorre, a cada respiração, a cada pensamento, você dá um passo que o afasta da dependência do pensamento discursivo e do medo, progredindo no caminho da iluminação, começando o desenvolvimento da compaixão por si mesmo.

Skyong Mipham em "Fazer da mente uma aliada".  

Apenas observe...

   Ao progredir na sua prática, você precisa ter vontade de examinar cuidadosamente toda experiência, toda abertura dos sentidos. Por exemplo, examine algo ligado aos sentidos; um som talvez. Escute. O fato de você ouvir é uma coisa, o som é outra. Você está consciente e é tudo o que interessa. Não há nada, nem ninguém. Aprenda a prestar atenção cuidadosamente. Confie, desta forma, na natureza, e observe para encontrar a verdade. Você verá como as próprias coisas estabelecem uma separação. Quando a mente não se apega nem sente um interesse legítimo, ela não se deixa aprisionar e as coisas ficam claras. 
   Quando os ouvidos estiverem ouvindo, observe a mente. Ela fica enleada e faz do som uma história? Pertuba-se? Você pode reconhecer isso: fique firme e tome cuidado! Algumas vezes, você tenta fugir do som, mas essa não é a saída. Você precisa fugir através da percepção.
   Em certas ocasiões apreciamos o Dharma; em outras, não, mas o problema nunca é o Dharma. Não podemos contar com a tranquilidade tão logo iniciemos a prática. Devemos deixar a mente pensar, deixá-la fazer o que quiser; observá-la apenas e não reagir. Então, à medida que as coisas entram em contato com os sentidos, precisamos praticar a equanimidade, ver que todas as impressões dos sentidos são iguais. Ver como elas vêm e vão. Não pense no que passou, não pense "amanhã vou fazer isso". Se reconhecemos as verdadeiras características das coisas no presente, em todos os momentos, então tudo é Dharma, revelando-se a si mesmo.

Achaan Chah em "Uma tranquila lagoa na floresta".

Penso, logo...

   O filósofo do século XVII René Descartes, considerado o fundador da filosofia moderna, deu expressão a esse erro fundamental com sua máxima (que considerou a verdade básica): "Penso, logo existo." Essa foi a resposta que ele encontrou  para a pergunta: "Há alguma coisa que eu possa saber com certeza absoluta?" Descartes compreendeu que o fato de estar sempre pensando estava além da dúvida, assim igualou o pensamento ao Ser, isto é: a identidade - o "eu sou" - ao pensamento. Em vez da verdade suprema, ele havia detectado a origem do ego, mas não sabia disso.
   Passaram-se quase 300 anos antes que outro renomado filósofo francês visse algo naquela afirmação que Descartes, assim como todo mundo, não havia percebido. Seu nome era Jean-Paul Sartre. Ele refletiu muito sobre a afirmação de Descartes "Penso, logo existo" e, de repente, compreendeu algo. Em suas próprias palavras: "A consciência que afirma 'eu sou' não é a consciência que pensa." O que ele quis dizer com isso? Quando estamos conscientes de que estamos pensando, essa consciência não faz parte do pensamento. É uma dimensão diferente da consciência. E é essa consciência que diz "eu sou". 

Eckhart Tolle em "Um novo mundo, o despertar de uma nova consciência". 

Os frutos da compaixão.

   A compaixão é recíproca. À medida que você desenvolve a própria estabilidade mental e emocional, estende essa estabilidade por meio da compreensão compassiva dos outros e lida com eles de forma gentil e empática; suas próprias intenções ou aspirações serão realizadas de forma mais rápida e fácil. Por quê? Porque se você trata os outros com compaixão - com a compreensão de que eles têm o mesmo desejo que você de felicidade e o mesmo desejo de evitar a infelicidade -, as pessoas a seu redor têm um senso de atração, um senso de querer ajudá-lo tanto quanto você quer ajudá-las. Elas o ouvem com mais atenção e desenvolvem um senso de confiança e respeito. As pessoas que no passado poderiam ter sido adversárias começam a tratá-lo com mais respeito e consideração, facilitando o seu progresso em realizar tarefas difíceis. Os conflitos se solucionam com mais facilidade e você se vê avançando mais rapidamente em sua carreira, iniciando novos relacionamentos sem as decepções amorosas habituais ou melhorando seus relacionamentos familiares existentes com mais facilidade - tudo porque carregou suas baterias por meio da meditação shinay e estendeu essa carga ao desenvolver um relacionamento mais gentil, compreensivo e empático com os outros. De certa forma, a prática da compaixão demonstra a verdade da interdependência em ação. Quanto mais você abre seu coração em relação aos outros, mais os outros abrem seus corações em relação a você. 

Yongey Mingyur Rinpoche em "A alegria de viver".